E todo o universo ali contido foi atraído por
dois buracos negros. As partículas, na lufa de poeira, foram sucumbindo, sem
protesto ou resistência, se agrupando e se colidindo, em seu efêmero trajeto
rumo à escuridão total, destino final. Sorvidas, foram condensadas, fundidas e
consumidas; transportadas à outra dimensão. Odores, ar bebido fogoagua, aquarela
incolor, ar cinzido tabacetonarsenicotinaftalina tocofogo, cujas pinceladas
suaves e rudes, chão roupa roupachão relaxador pelido miador, multicoloria
imagens nas telas brancas da consciência. Afastou o focinho.
Começou a percorrer o corredor de um canto ao
outro, cabisbaixo, com passadas ágeis, semelhante a um saltitar, como se o sol
que ali incidia houvesse transformado o chão em brasa; seu ganido era
intermitente, e a amplitude crescia progressivamente, assimilando-se, de
início, a um leve ranger de roldana mal engraxada, transformando-se em acorde
agudo de guitarra, e, por fim, encontrando seu tom semelhante a canto de pneu
no asfalto; e, regressivamente, de pneu a guitarra, de guitarra a roldana, de
roldana a silêncio. Caminhou pelo corredor, galgando sobre o forro pútrido
composto por restos de alimentos, caixas e bitucas de cigarro, papéis higiênicos
e absorventes usados, e retalhos de um esgarçado saco plástico cor-de-piche; passando
pelo engradado plástico repleto de garrafas de vidro, pelo saco de juta rijo e
avolumado, devido as latinhas amassadas em seu interior, indo em direção à
fachada da casa. Deu de encontro com dois potes de alumínio em frente à casinha
de madeira, um deles vazio e o outro repleto de farelos, envolto por alguns
grãos estufados e murchos. Inclinou a cabeça sobre o pote vazio, tentando
encontrar ali gota d’água antes não percebida. Resignou-se e voltou ao
corredor, aonde reiniciou seu ganido: roldana; guitarra; pneu; guitarra;
roldana; silêncio.
O cão, cuja esperança se fora, deixando
apenas rastros os quais podiam ser ligeiramente farejados, decidiu por
ocultar-se dos raios de sol na sombra projetada pela copa da árvore do terreno
vizinho, cujos pardais que ali se aninhavam haviam cessado o gorjear há horas.
Deitado em meio a folhas secas e gravetos, o cão possuía um olhar melancólico,
incapaz de fitar qualquer coisa, consolados apenas pelas pálpebras, ternamente
semicerradas. Súbito, a orelha esquerda eriçou-se num só ímpeto, inclinando-se
para a lateral; o cão ergueu-se, aprumando o corpo, correndo em seguida até a
porta, aonde, novamente, recostou o focinho no limiar. Um monte de odores que
podiam ser sentidos no horizonte, humano pata pérfume femeador ovovem bebido
fogoagua cinzido tocofogo pelido miador mãe, e expandiam-se cada vez mais. O
cão passou a saltar, ciciar e arfar entusiasmado, dando leves empurrões na
porta, incapaz de vedar por completo o som das palmadas que a velha chinela
dava no piso, que ele captara anteriormente, assim como os estalos produzidos
pelas articulações do joelho, agora captados pelo animal. Os sons cessaram
repentinamente, e, durante esse brevíssimo instante, o cão, de cócoras, arfando,
estático, com exceção da cauda que se movia por conta própria, observava a
maçaneta, que, ao torcer para a esquerda, liberou um estrondo oco, e, ao ouvi-lo,
teve o coração entrando em disparada, feito cavalo de turfe ao ouvir o
estampido do revólver, rodopiando a cauda que dava corda ao corpo que saltava,
arfava, ciciava e farejava: os pés, as mãos, o ventre, a traseira da mulher que
saíra por detrás da porta. Diminuída a euforia, o cão pôs-se a vasculhar em
meio as folhagens no quintal, pataplanta, trazendo um graveto entredentes,
cercando a mulher com as orelhas eretas e um olhar piedoso.
-
Quantas-vezes-eu-já-falei-pra-não-fuçar-o-lixo!
Após oferecer um graveto e receber como
gratificação um safanão, o cão gania com a repreensão, que doera por fora e por
dentro, recolhendo-se em sua pequena casa de madeira, ouvindo dali um forte
estrondo, choque entre batente e porta, provocado pelo empurrão seco da mulher,
que, adentrando, recostou suas costas ali mesmo, como se a madeira envernizada
exercesse atração sobre as escápulas. A cabeça, suspensa a frente, aproximava
queixo e tórax, que expandia e retraía a cada vez que suas narinas, com
esforço, sorviam e repeliam o ar lúgubre da sala-de-estar, tremulando as finas
mechas onduladas que deslizavam à fronte, cobrindo os olhos cerrados enterrados
em olheiras; tocou os grossos lábios com a ponta dos finos dedos. Descerrou os
olhos.
Desencostou-se da porta. Arrastava as
chinelas em direção à cozinha quando – droga! – tropeçara em uma garrafa de
vidro vazia emborcada; susto que fez com que ela fixasse seu olhar no chão, fiscalizando
o trajeto de seus pés, que contornavam as peças de roupas emboladas sobre o
chão e o carpete no centro da sala. Ali: avistara o isqueiro vermelho na fenda
entre o assento e o encosto do sofá, cujas bases laterais se encontravam
completamente desfiadas, com a espuma e a carcaça de madeira expostas. Pegou-o.
Deu uma breve esquadrinhada sobre o sofá. Não, não está. Foi para a cozinha.
Súbito, sentiu uma massa aveludada roçar-lhe
as canelas, emitindo um ronco de motocicleta longínqua, acompanhado de um miado
amoroso e suplicante; esfregando cabeça, espádua, flanco, anca, e cauda, que
finalizava a demonstração de afeto com um delicado chicotear, para, em seguida,
começar tudo outra vez. O gato, que dormira aninhado no vão de suas pernas,
despertara ao mesmo instante, acompanhara-a no banheiro enquanto ela se
debruçava sobre a privada, seguindo-a em direção à cozinha, da cozinha à sala,
e permanecendo aí, porque o quintal, próxima parada, era território perigoso,
finalmente a vencia pela insistência que ela tanto tentou ignorar, indo
atender, com isqueiro em mãos, as exigências do felino.
Abriu umas das portas do armário da bancada
da pia da cozinha, inclinando sua coluna, se deparando com álcool líquido
álcool em gel sabão em pó sabão em pedra alvejante amaciante desinfetante detergente;
abriu a outra e lustra-móveis palha-de-aço teia-de-aranha água-sanitária
areia-sanitária ração canina ração felina, aqui, pegando o saco que, ao
farfalhar, tornaram os miados do gato ainda mais frequentes, o olhar mais
suplicante, e a língua áspera a deslizar no focinho deliciosamente. A mulher
inclinou o saco parcialmente vazio no pote parcialmente cheio; o gato emitiu um
ruído dócil, talvez agradecendo, talvez aprovando, talvez arguindo, e com
pressa meteu a cara ao pote, deleitando-se de olhos cerrados, aprumando, com
arrogância, a pelugem da corcunda cada vez que sentia a mão humana correr sobre
ela. A mulher ergueu-se com esforço, e o estalo produzido por um de seus
joelhos confundiu-se com o estalo provocado pelos grãos ao estourarem na boca
do felino; permaneceu estática, tentando recordar quais seriam os próximos
passos. Pedindo por alguma recordação, foram lhe entregues recordações demais.
Direcionou os olhos à mesa, procurando em meio à lata emborcada que respingava
cerveja e atraía o cordão de formigas que se esbarravam e se cruzavam a lata de
inseticida os miolos de pão amassados o pó de café em cima da tolha amarrotada
o jornal que dizia Governo cria imposto sobre as páginas o leite derramado pelo
gato que mergulhara as patas e havia feito um rastro de pegadas que ia até o
prato com restos de feijão arroz e omelete onde moscas pousavam sobrevoavam e
pousavam na cerveja nos miolos no pó na toalha no jornal no leite no cinzeiro
com o logotipo marlboro o maço de cigarros recostado ao lado o celular,
pegando-os. Abriu o maço, dando a sorte do azar - ou o azar da sorte – de se
deparar com um único cigarro, levando-o até os lábios e o acendendo com o
isqueiro, que, finalmente, era solto de suas mãos e deixado sobre a mesa.
Atirou-se sobre o sofá; o cigarro entre os
lábios foi tecendo filetes prateados e ondulados que se emaranhavam e se
dissipavam na atmosfera densa e azulada; com o celular em mãos, 13:45, o dedo
ia correndo pela tela, ligando círculo com círculo até não haver círculo
nenhum, apenas ícones espalhados sobre a imagem de um casal de sorrisos largos
ombros unidos bêbados de alegria com copos cheios de chope brindando em direção
à mulher do outro lado da tela abria o aplicativo de mensagens. Bruno Oi Lu, vc
ta bem? NVG Amigos Kkkkk Alberto Que tal nós irmos um dia desses ao b...
Carlinhos Oi sumida Família Bom diiiia!!! Jaime Amor Volta <3. Volta <3.
Mensagem enviada na noite anterior, em um momento em que estava embriagada pelo
álcool, pelo pranto, pelo desespero. Mensagem enviada, visualizada e não
respondida. Volta <3.
Volta?
A tela do celular apagou-se, refletindo a luz
do cigarro, distorcida a cada lágrima que ali se esparramava ao desprenderem-se
do rosto. Assim como as lágrimas, escorriam as narinas e as esperanças da
mulher, que ainda relutava a aceitar que raras são às vezes em que o amor é
como um graveto, que você atira ao outro, e aguarda, com um sorriso no rosto, que
ele o traga de volta entre os lábios e o devolva contente, no aguardo para que
seja atirado novamente, e ele possa devolvê-lo mais uma vez, com ainda mais
satisfação. Na grande maioria das vezes, o amor é como ração que se põe ao
pote: satisfeitos estão aqueles que possuem alguém para servi-los; aos
insatisfeitos, tudo o que resta é perseguir os passos, ofertar carinho e
suplicar por atenção, pois, sem amor, morre-se de inanição.