quarta-feira, 15 de março de 2017

AUGUSTINHO

- É aqui?

- Isso.

  Aproveitou o fim da corrida para poder, enfim, melhor observar o decote da passageira através do retrovisor. Moveu o terço ali pendurado: o cordão de contas estava a cobrir a vista daqueles seios parcos, porém delineados.

- Quanto é?

  Enquanto a passageira distraia-se explorando em sua bolsa, em busca da carteira, Augustinho aproveitou para ajustar o retrovisor, mirando-o em direção àquelas pernas torneadas, lisas, lustrosas. Apertou os olhos, tentando dar um zoom na própria visão, buscando ver no reflexo alguma coisa na penumbra da fresta entre as coxas e o vestido; qualquer coisinha...

- Ein, quanto?

  Augustinho despertou do transe.  Notando ser fitado pela passageira, disfarçou cinicamente, na torpe esperança do assédio não ser notado.

- Ér...oitenta-e-cinco – encarou a passageira, e completou, escondendo por detrás do banco a mão em que portava a aliança – Mas vamos fazer o seguinte: como você foi muito simpática (e, também, é muito bonita), eu faço por setenta-e-cinco! Lançou em seguida um sorriso mordaz àqueles olhos cercados por cílios perfeitamente alongados, que fugiram, arredios.

- Ah, obrigada...  retrucou com seu sotaque atípico, sorrindo timidamente por condescendência, enquanto pagava o devido valor subtraído pelo desconto.

  Aquele gracejo nunca funcionara antes, mas Augustinho não perdia as esperanças: “Sou brasileiro, e não desisto nunca!” Dizia esperançoso aos colegas de profissão. Havia de chegar o dia em que ele contaria – dessa vez, sem precisar utilizar-se de factoides – como usara toda a sua lábia para "comer" uma passageira.
  A moça abriu a porta traseira próxima ao meio fio e foi saindo vagarosamente; Augustinho, cordial como já se mostrara dentro do veículo, saiu em seguida para ofertar todo o seu cavalheirismo:

- Quer ajuda? Do jeito que você está é capaz de você acabar caindo. É perigoso...

- Precisa não. Tá tudo bem.

  Não estava, mas nela sublinhava a intuição que estaria mais segura desacompanhada. Através de passadas bambas, remexendo as cadeiras em descompasso, como se ainda dançasse ao ritmo do som ambiente da casa noturna, caminhou em direção ao portão que guardava o sobrado; sem porteiro ou trancas.
  Augustinho pegara a moça em frente a uma casa noturna, dessas em que as mulheres frequentam em busca de homens por uma noite, por diversão; tal como os homens, que também a frequentam em busca de outros homens por uma noite, por diversão. Augustinho não gostava da clientela vinda daquele local, principalmente os casais: achavam-se no direito de trocar todo o tipo de carícias no banco traseiro. Mãos aqui; lá; acolá. Pior ainda era aquele tipo de casal – sim, aquele. Sempre altivos, espalhafatosos, escandalosos, alegres, muito alegres. Mas como o próprio dizia: “Nessa crise não dá pra escolher carona.” Culpa de um governo corrupto que rouba a população. Impostos, aumento da gasolina, alvará, pedágio e os diabos! Tudo para poderem encher os próprios bolsos e distribuírem aos vagabundos, ponderava. “E ainda querem que sejamos obrigados a aceitar essa pouca-vergonha! É o fim do mundo mesmo...” Porém, julgou ser um dia de sorte ao ver aquela morena vindo em sua direção: os lisíssimos fios a lá progressiva bailando ao vento; o corpo sufocado por um  vestido de poliéster azul; a luta para equilibrar-se sobre o tamanco salto-alto.

- Pra Capitão Biténcurrr... Augustinho notara de cara os dois sotaques fundidos: o do Nordeste e o do álcool.

Nas conversas que tinha gosto de iniciar com – quase – todos os passageiros, de preferência as moças dotadas de beleza rara, descobriu, entre palavras indecifráveis e soluços, que a moça chamava-se Raquel: “Mas Raquel com k.” Rakel;  vinte-e-dois anos; vinda de “Pérrrnambuco”; passou no “Véstibularrr do Éneim” para estudar Nutrição em uma universidade paulista. Não havia conseguido o auxílio-moradia. Procurou, procurou, e o máximo que conseguiu foi alugar o terceiro piso de um sobrado. Banheiro, quarto, cozinha, só; tudo muito estreito. Era pouco, mas era o que suas economias advindas de seu trabalho como lojista na vinte-e-cinco de março e auxílios familiares permitiam: “Muito caro tá tudo aqui...” As paredes do sobrado, tanto por dentro, quanto por fora, tinham o reboco inacabado; e o portão que Rakel acabara de cruzar era consumido pelo tétano. Enfermo, gemia a qualquer toque, brusco ou suave.
  Inquieto, Augustinho fitou o visor do relógio da pulso. 2:57. A escuridão já aprisionara sob seu cárcere aquela rua pingada de postes de iluminação. Não havia nenhum transeunte ou veículo rondando por ali. Viu-se embebido pela silhueta de Rakel, guiando o formoso corpo com dificuldades, cruzando o corredor externo do sobrado, que dava de encontro com a escadaria. “Talvez eu devesse ir lá ajudar ela. Desse jeito ela vai acabar rolando escada abaixo. Sim, guiar ela até a porta. Pode ser que ela me convide para entrar. ‘Ah, me desculpe, não posso. Tenho a noite inteira pra trabalhar’. ‘Ah, que isso. Deixa de bobeira!’. ‘Tudo bem. Uns cinco minutinhos não farão mal nenhum...’ Entro, então. Aposento pequeno; está calor aqui dentro, muito calor. Tiramos a roupa então, para refrescar. Ops! Tiramos demais, está frio aqui! Para a gente se aquecer, abraçadinhos, unimos nossos corpos...” como o magenta mesclando-se ao ciano, manchando de violeta os lençóis, o tapete, as paredes do banheiro... E assim os devaneios daquele homem foram fluindo, fervendo, escorrendo do crânio ao corpo lentamente, parando na região pélvica aonde, aglutinado, formou um proeminente volume sob o jeans.
  Decidido, moveu-se rapidamente até a porta do automóvel, trancando-a. Deu passadas em azáfama até chegar ao portão enferrujado. Puxou-o suavemente, mas o portão parecia não querer permitir a entrada do hóspede indesejado, guinchando em protesto, movendo-se parcimoniosamente. Augustinho então puxou-o com mais força. Ouviu, logo após a um guincho ainda mais estridente do portão, um murmúrio berrado com violência:

- Perdeu! Perdeu, porra! Perdeu, perdeu!

  O corpo congelou. O coração, para não padecer ao mesmo destino, saltava freneticamente dentro do tórax, a fim de manter-se aquecido. Recuperou-se do milésimo de paralisia; tentou, desesperadamente, refugiar-se dentro do automóvel. Encaixou a chave à fechadura da porta. Sentiu uma aguda pressão na nuca.

- Perdeu, tiw! Nem adianta tentar dar fuga q’eu estoro seus miolo aqui memo!
Augustinho, novamente, sentiu um calor na região pélvica; desta vez, porém, não era o mesmo calor de outrora: era líquido, seguia o curso de suas coxas, desembocando na barra da calça.

- O...olha a...aqu...qui, pod..d...de lev...

- Ca-la-bo-ca, porra! Passa a carteira e o celular!

  Hesitou. Sentiu um duro golpe na nuca: coronhada. As mãos foram ,então, por vontade própria, até o bolso traseiro; e, em seguida, ao frontal esquerdo, entregando a velha carteira de couro recheada de documentos e cartões e o celular com cinco prestações a pagar, duas em atraso.

- Que relógio lixo! Queressa merda não. A chave. Me dá a chave do taxi. Vamo, mano!

  O temor, que o embriagara, foi se esvaindo através dás gotículas de suor que ensopavam sua camisa, salpicavam-lhe a face, empapavam seu amanhado bigode. A respiração, intermitentemente acelerada, expelia o ar contaminado pelo medo à atmosfera.

- A chave! Soltessa porra dessa chave e afasta do carro, vai!

  O mundo parou de girar. Augustinho segurou a chave com mais força que dantes. “Bandido dos infernos! O que a gente conquista com muito suor, com trabalho digno, vem esses vagabundos tirarem! Sempre se dão bem!”

- Vamo, tiozão! Filhodaputacornodocaraio, eu vou te matar!

  “Pela voz, esse desgraçado deve ser de menor. Eles roubam, matam, estupram, e nada acontece! A justiça protegem esses vagabundos. ‘São só crianças...’
  “Não posso deixar esse vagabundo sair impune daqui, levando tudo o que é meu. Já é hora de alguém fazer alguma coisa...”
  Augustinho serrou o punho com o qual segurava a chave, posicionando a lâmina entre o dedo médio e o indicador.

- Vai, me daqui na minha mão saporra!

- V...vá-para-o-inferno!

Augustinho tentou olhar de esguelha ao rosto do assaltante. “Se eu for rápido, eu consigo enfiar a chave no olho dele...”

- Quê?! Qué morrer, é?! S...seu cuzão do caraio!

  A voz do assaltante, aguda e rouca, passava agora a tremular, ao ritmo do corpo, que chacoalhava. Pressionou o cano do 38mm enferrujado com mais força contra a nuca de Augustinho, como se assim fizesse brotar munições no tambor, vazio.
  Augustinho fitou a palma calejada daquela mão ali estendida a ele, que tremulava tal qual a de um idoso padecendo ao mal de Parkinson. Calculou, em sua mente, qual posição se encontrava a cabeça do meliante; e naquela imagem simulada, a localização de seu olho esquerdo. O corpo vibrava. Apertou a chave na mão com mais força. Ao fim, largou as chaves do carro naquela palma, como se não suportasse mais a fervura do objeto, que parecia derreter a palma de sua mão.

- Vai, v...vai, afasta ó, afasta! Não vira! Não vira, se não te mato!

  Um garoto lutando para encontrar o respectivo encaixe no desvirginar: sensação semelhante foi sentida pelo assaltante ao tentar unir a chave à fechadura da porta do automóvel. Entrou exasperado; afundou-se no banco do veículo. Fechou a porta bruscamente. A mesma dificuldade em unir chave e ignição para dar partida ao veículo. Sucedido, o ronco do motor e o canto do pneu rasgaram de ponta a ponta o véu de silêncio que cobria aquela rua.
  Augustinho tentou ainda, infantilmente, correr atrás daquele veículo e pegá-lo nos braços, olvido de não ser mais uma criança; e o carro, um brinquedo de plástico. Desolado, viu seu instrumento de trabalho miniaturizar-se cada vez mais, virar a primeira esquina e ir em direção a lugar algum. Sentiu-se humilhado. Teria ele enfiado aquela chave profundamente no olho esquerdo daquele meliante juvenil. Nunca um impulso lhe fora tão latente em toda a vida; mas uma lembrança travou-lhe: passara em todos os jornais na semana passada. Um senhor, engenheiro de profissão, tentou impedir que levassem seu celular. Lutou. Resultado? Uma bala na têmpora e outra no malar. Morreu na hora. “Mais uma família que enterrou um ente querido. E de pensar que poderia ser eu, sendo sepultado pela minha mulher e meus filhos.” O homicida? Um menor de idade, tal qual o que o assaltara. “Lixos! Criminosos! Vermes! Deveriam apodrecer na cadeia! Mas não, são mandados para um lugar aonde podem jogar bola, brincar, estudar, fazer sexo... tratam essa corja com carinho e conforto!
  “Ah, mas se eu fosse presidente desse país, tudo seria diferente..! Bandido seria executado na hora! Sem direito a julgamento, e muito menos a extrema-unção. Iria arder no inferno!
  “Não, não. Mas assim seria muito pouco. Executar logo de uma vez, não. Antes haveria uma séria de torturas medievais, e em praça pública! Para que ninguém mais seguisse o exemplo...”
  E assim, caminhando de um lado para o outro sobre o meio-fio, Augustinho atravessava um portão seguido de outro. Sem porteiros, nem trancas; tampouco enferrujados. Enraivecido, foi cruzando um a um os portões que levavam da inconformidade à revolta; da revolta à vingança; da vingança ao ódio; do ódio a mais ódio; e assim sucessivamente...