A professora repete,
mais uma vez, o conteúdo para a classe agitada e dispersa. Entre a turma,
sentado em frente à mesa da professora, está um menino tímido e ensimesmado,
que tenta compreender a aula lendo os lábios da tutora, mas logo desiste,
porque ela sempre para a explicação para chamar a atenção de algum aluno ou da
classe no geral. Seus colegas de turma não sabem como se comunicar com ele,
gesticulando de forma frenética e confusa; e alguns deles, provocativos, fazem
caretas ou dirigem a ele gestos obscenos. Seus pais também possuem dificuldades
de se comunicar com ele, pois ainda estão aprendendo a língua dos sinais. Como
esperar que essa criança, desamparada em todos os sentidos, tenha um bom
desempenho escolar?!
As escolas
brasileiras, especialmente as públicas, na maioria das vezes falham em dar
apoio educacional a seus alunos, como demonstra os resultados de testes de
avaliação nacionais e internacionais, e esse fosso é ainda maior quando se
trata de alunos deficientes: os profissionais da educação, muitas vezes, não
sabem como lidar com a maioria delas, como a surdez, não sabendo o básico para
o uso de Libras. E se eles não sabem, quem dirá os alunos, que muitas vezes
tratam seus colegas deficientes auditivos com hostilidade, pois não sabem como
se relacionar com eles. Contudo, são os pais que lidam com o mais difícil:
reconhecer ainda cedo a deficiência e buscar apoio, tanto para o filho, quanto
para eles próprios.
Não existem soluções
imediatas para esses problemas. Contudo, as esferas governamentais poderiam
tomar a dianteira do processo: a obrigatoriedade, por lei, da inserção do
ensino de Libras em cursos superiores de pedagogia e de docência, além de
avaliações regulares dos profissionais. O ensino de Libras como matéria
optativa no ensino básico também poderia ser proposto, aumentando o
conhecimento da população sobre a linguagem. Porém, são os produtores de entertenimento
que possuem o maior alcance das massas: as novelas poderiam retratar a surdez
sem tabus, como fez as novelas Páginas da Vida e A Força do Querer com a
Síndrome de Down e a transexualidade, respectivamente. O filme Rain Man
expandiu o entendimento popular sobre o autismo. No ramo infantil, a Turma da
Mônica mostrou seu lado inclusivo, dando espaço para personagens deficientes,
como o *Mudinho. Assim como o Mudinho merece espaço na Turma, a surdez merece a
atenção do Brasil.
*Mudinho?! Se você conhece TdM deve ter estranhado. O nome
do personagem é Humberto, e eu só fui me recordar disso no caminho para casa. O
que não fazem mais de 10 anos de fim-de-infância...