quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Um arco-íris no firmamento

Para Alex e Panchito
e ao amor que existe entre os dois

e

Para Bruna Mota
que eu seja para sempre o seu Poeta




Meu coração desabrochou
em mil palpitações
quando o amor que em mim zunia
nele
pousou

Um enxame atroz penetrou profundamente
em meu vulnerável âmago
mergulhou-se em meu peito afogado
afundou-se em meu estômago
ferroou, ferroou, ferroou
e voou
                 zanzando
zumbindo
                 zombando
pegajoso, empapado de paixão
carregando consigo um pouquinho
de mim

de pouquinho em pouquinho

de pouquinho em pouquinho

tudo ao meu redor
(agora abaixo)
encolhia
mais à
cada
vez

Mais leve que o ar
ás alturas elevava-me, sublimando
             alvo, fofo
                        iluminado
                          inflado, condensado
Estava nos céus
como se fosse um peixinho
perdido na imensidão azul
submerso em um nebuloso
oceano de esperanças
preso ao anzol que fere e alimenta
e a linha invisível que nos liga
encurtando-se
mais e mais
(menos; menos)

Atingem me
ríspidos relampeios
de ansiedade
me contorço
impaciente
em transe
piro
pelos
poros
transbordo
em bilhões
de borbotões -
trovões estrondam em meu estômago
- me derretendo
vou chovendo
chiando
e encharcando
seu vasto jardim verde e
vazio

Ternas e tépidas raízes brotam e me abraçam
Uma multidão de tulipas de múltiplas cores
florescem flamulando ao redor, flutuando
feito um multicolorido mar a ondular no ar
Suas mãos e dedos deslizam em deleite
ao escalar o cume de minhas escápulas
Rotacionam-se nossas cabeças em órbita
Os olhos se põem sob as pálpebras
E na escuridão, saem afoitas das tocas
as línguas, lascivas, e se lançam
à cópula com volúpia
mesclando-se em um enlace lento e molhado
Nossos corpos convergem, como
imensas massas tectônicas que a tudo abalam
Encaixam-se; pressionam-se
vibram em excitação
Os montes emergem na superfície
e do manto em movimento
a lava se eleva, espessa
penetrando o oco profundo
ribombando ao bombear-se entre a crosta
O vapor carbônico, baforado à atmosfera
O fremir; o furor; o fulgor; o fogo
findam, enfim, em um fervente esguicho
que escorre, lânguido, coalhando lentamente

Adormecemos debruçados ao amanhecer
Os corpos como montanhas na cordilheira
inertes, oscilantes, adjacentes
iluminados pela luz que nasce no horizonte
e que clareia o caminho das cores
que cruzam o céu de mãos dadas
deixando um longo rastro, deslumbrante:
um arco-íris no firmamento

domingo, 13 de janeiro de 2019

POSSE

Um homem está armado com um fuzil de precisão sobre o topo do Bloco B da Esplanada dos Ministérios, sede do finado MinC, o último dos redutos esquerdistas da República Federativa do Brasil, e o aponta em direção ao presidente eleito, prestes a apertar o gatilho, imaginando ver em seguida a primeira-dama já ir se debruçando sobre a traseira do Rolls-Royce, tentando desesperadamente recolher os miolos espatifados cheios de ódio ao Socialismo; ódio à bandidagem; à doutrinação ideológica; à corrupção dos canalhas comunistas; ódio às ideologias de gênero; ao politicamente correto; ódio  às cotas; à cartilha gay; ódio à cor vermelha; e a tudo que está a sua esquerda.
O homem, armado com um fuzil de precisão, de cabelos grisalhos e vestido todo de preto, ajeita o fuzil no suporte e olha novamente para o Eixo Monumental, apinhado de cavaleiros brancos tremulando suas crinas e flâmulas vermelhas, conduzindo seus cavalos igualmente brancos e perplexos, descoordenados, agitados, aflitos, circundando uma fileira de austeros automóveis pretos; escoltados por motocicletas piscantes em formação de lança; tudo existindo em função daquele ocupante do Rolls-Royce, que acenava e era recebido por uma massa parda sarapintada de verde-e-amarelo, que se amontoava e se espremia nas grades, e, alucinada, acenava, ovacionava, bradava, vibrava, fotografava, filmava, sacudia as bandeiras nacionais, como se aquele fosse o caminhão de bombeiros responsável por transportar os hexacampeões mundiais.
Vestido todo de preto, de cabelos grisalhos, armado com um fuzil de precisão, o homem olha através da luneta, e vê, no centro do alvo, o filho sentado sobre a traseira do Rolls-Royce, pés sobre o banco, com um olhar travesso e ambicioso, contemplando tudo aquilo que o sol tocaria se aquele não fosse um dia nublado, imaginando que, em breve, tudo aquilo será seu! Tu-do-seu! Moveu a mira em direção à elegantíssima primeira-dama, vestida com todo o requinte e decoro que a data exigia, fazendo e refazendo gestos com a mãos, torcendo o rosto várias e várias vezes, tudo isso dentro de sua cabeça, enquanto mantinha um sorriso simpático e dócil, permanecendo tensa na expectativa incerta de agradar o marido. Desviou a mira em alguns milímetros, deixando no centro da cruz a cabeça do presidente eleito, que muito arduamente controlava o impulso de seus dedos virarem arminhas a serem apontadas em direção aos populares alucinados, mas que não conseguia e nem fazia questão de controlar o suor que marejava os olhos e o largo sorriso que refletia o orgulho e a glória de ser o presidente eleito, graças a permissão de Deus, que o ajudará a acabar, com toda a corrupção, da esquerda, que assola, nosso país.
A acabar, com toda a inversão de valores, que; nos últimos anos; nos levou, a pior crise ética e moral, de nossa história; mantendo apenas, a inversão de valores, cristãos.
A acabar, com todo o crime organizado; que não use farda; nem colarinho branco; que ameaça, nossas vidas.
A acabar, com todas as doutrinas ideológicas, nefastas, que não sejam a minha; que ameaçam desvirtuar, nossas famílias; e, nossas crianças.
E dar; ao cidadão de bem; o direito, de meter bala, após uma briga de bar; e de meter bala, em quem pular, sua cerca.
Brasil, acima de tudo.
Minha família, acima do Brasil.
Deus, acima de todos.
Lá do alto, o homem, cabelo grisalho, olhando através da luneta, vestido todo de preto, armado com um fuzil de precisão, prepara-se para atirar.

Dispara.

O presidente eleito desaba dentro do Rolls-Royce. Silêncio. Gritos! Pânico! O povo ensandecido se desespera; berra; protesta; ora; amaldiçoa; avança; arrebenta contra a grade; os policiais militares tentam conter a investida, atordoados e indecisos entre desempenharem sua função e acudir seu presidente; ordens; insultos; agressões; armas sacadas; disparos para o alto; mais pânico! Os cavalos ficam apavorados e tresloucados, como se estivessem em um carrossel desembestado; relincham; bufam; galopam agressivamente; colidem; Dragões da Independência tombam; os aterrorizados guarda-costas se agacham, estarrecidos pelo atentado e por não ter sido usado uma faca dessa vez; motores roncam; cascos ressoam; um helicóptero zumbe no céu; sirenes; pneus cantam; mais gritos; pessoas se exasperam e se lastimam como se o messias tivesse sido assassinado; ira; pedras arremessadas; grades cedendo; viaturas chegando; um cachorro vira-lata amedrontado passa no meio do tumulto e ninguém sabe como ele chegou até lá; estouros; gás lacrimogêneo; balas de borracha; corre-corre; gente ao chão; detenções; convulsões; preces; desolação; descrença; revolta; devastação; choro; sangue. O horror.
Em milhões de lares, brasileiros acompanham perplexos a catastrófica posse presidencial, e a debatem em todas as redes sociais e sob todos os sotaques. Alguns, descontroladamente indignados; outros, contidamente contentes; todos indiferentes ao apresentador rechonchudo, mais histérico e sensacionalista do que nunca, que parecia prestes a explodir a qualq...Cadê?!! Será que dá pra pôr na tela de novo o momento em q-que o presidente foi atingido?!! Põe aí, na tela grande…...Cadê, já deu pr...Põe na tela! PÕE NA TELA LOGO, PÔ!!! Caramba!.......Quê?! Ah lá, reveja o momento em que o presid... - Imagens fortíssimas! - O momento q-q-que o president...Não, congela a imagem. Não, volta…...Nã...isso. Veja só…....ééé....foi nesse exato moment...A gente já conseguiu entram em contato com a acessoria d-d-do presidente da república, pra saber sobre seu estado de saúde?! Ãh?!.....Tá. Reveja o instante em que um ban-dido! Um vagabundo! Um sem-vergonha! Um terrorista! Um assassino! ASSASSINO!!!...Comete esse crime bárbaro! Um vagabundo! Um sem-verg...Pô, mas vô te falar…..cadê os cento-e-trinta snipers?!.......Cadê os caças?! Cadê o fortíssimo esquema de segurança?! CADÊ OS SNIPERS?!!............Que deixaram acontecer esse crime bárbaro! Deixaram que esse ban-dido, esse vagagabundo, sem-vergonha, canalha, terrorista…..Porque isso foi um ato terrorista, véio…..Me fala se não foi…….Um crime. UM ATENTADO. Contra o presidente eleito democr...Quê?! O quê q...Vocês tiveram acesso a film…….ATENÇÃO! Filmagens. De um cinegrafista amador. Podem dar pistas. Sobre o possível suspeito. A equipe do Bras…(dezessete minutos e treze segundos depois)...Imagens exclusivas do possível suspeito de atentar contra a vida do presidente da república. Aqui. Põe na tela!
E na tela, um homem, vestido todo de preto e de cabelos grisalhos, que provavelmente estava armado com um fuzil de precisão, foi flagrado lá do alto do Bloco B da Esplanada dos Ministérios, sede do finado MinC, o último dos redutos esquerdistas da República Federativa do Brasil, montando e fugindo em um porco voador, partindo em direção a outro continente, carregando sacos e mais sacos de dinheiro público oriundos de doações da Lei Rouanet, para financiar seus shows repletos de sermões esquerdistas em todo nosso mundo plano.