domingo, 3 de outubro de 2021

A DAY IN THE LIFE

 

   Headshot! “Oii, a gente precisa conversar”, diz ela, aparecendo em uma janela com o olhar apreensivo, empurrando meu Call of Duty mais à esquerda. “Diga”, resmungo, sem muita simpatia, após ser morto por um camper de merda. Começa a tocar We Can Work It Out após o fim de And I Love Her. “Você anda estranho comigo...” “Como assim?! “Não sei explicar direito...” “Hm.” Vou atrás de munição pro meu AR. Procuro. Cadê essa merda?! “...tanto quanto antes. Se não sou eu te chamando, a gente nunca conversa.” Life is very short and there’s no tiiiiiiime... “Diz alguma coisa!” “Dizer o quê?!” “Não sei! Qualquer cois...” Brota um merchan da Coca-Cola na frente. Merda! Uma lata toda suada se exibe. É aberta; chia. Começa a ser inclinada em um copo lentamente. 2...1...Fecho o anúncio. Fui morto. Porra! “Você ainda tá aí?!” Diz ela, com uma voz e olhar manhosos, os olhos grandes e brilhantes como o sol. “O que você quer ein, Lucy?!” Sua expressão fica mais apreensiva; e a voz ainda mais embargada. “Tá vendo?! Olha como você tá falando comigo! Olha como voc...” Mato um otário que estava moscando; mato outro que vinha entrando pela porta “...tempo para mim, mas sempre tem tempo para jogar esse jogo de tiro idiota! Não pode nem dar uma pausa nisso para a gente poder conv...” “Buceta!” Esbravejo após ser morto pelas costas. Ela toma um susto. Meu arquivo de nudes e vídeos pornô salta em uma janela, empurrando todas as demais para as laterais. “Caralho, você não pode esperar um pouco, ein?!” Ela começa a chorar. Chora junto com a guitarra de Clapton no solo de While My Guitar Gentle Weeps, que só agora noto estar tocando. Tento ignorar o choro nada melódico e me concentrar no jogo. Perco a partida. “Sabe...eu acho que já deu pra mim.” “Como assim?!”, ela balbucia, interrompendo brevemente os seus soluços. “Acho melhor terminarmos.” Uma janela irrompe à frente, repletas de garotas virtuais, assim como ela, empurrando e diminuindo todas as demais janelas. Ela reinicia o pranto, com ainda mais intensidade. “Tchau, Lucy”. Ela chora; soluça; pede para eu esperar; implora para eu esperar mais um pouco. Fecho a janela. Yesterdaaay, love is such an easy game to plaaay, now I... Fecho o Call of Duty. Fecho também a janela das Digigirls, depois eu escolho outra. Talvez eu devesse adquirir a versão premium... Pauso o player assim que Yesterday chega ao fim, antes que comece a tocar outra. Dou uma olhada nos meus arquivos de vídeos pornô; percorro-os com a barra de rolagem; penso um pouco... Não, perder essa partida me brochou completamente. Fecho a janela. Por hoje já deu. Me jogo na cama desarrumada, cagando pros lençóis. Fico remoendo durante algum tempo minhas angústias. Ajusto o despertador. Pressiono com o indicador o botão na minha nuca por três segundos.

domingo, 15 de agosto de 2021

"O passado anda atrás de nós"

Ana Martins Marques



O passado anda atrás de nós
como os detetives os cobradores os ladrões
o futuro anda na frente
como as crianças os guias de montanha
os maratonistas melhores
do que nós
salvo engano o futuro não se imprime
como o passado nas pedras nos móveis no rosto
das pessoas que conhecemos
o passado ao contrário dos gatos
não se limpa a si mesmo
aos cães domesticados se ensina
a andar sempre atrás do dono
mas os cães o passado só aparentemente nos pertencem
pense em como do lodo primeiro surgiu esta poltrona este livro
este besouro este vulcão este despenhadeiro
à frente de nós à frente deles
corre o cão

Pequenino Morto

Vicente de Carvalho


Tange o sino, tange, numa voz de choro
Numa voz de choro... Tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!

Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas ver-te...
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda!  E gostarás de ver-te
De vestido novo.

Como aquela imagem de Jesus, tão lindo
Que até vai levado em cima dos andores,
Sobre a fronde loura um resplendor fulgindo
— Com a grinalda feita de botões de rosas
Trazes na cabeça um resplendor de flores...
Pequenino, acorda!  E te acharás tão lindo
Florescido em rosas!

Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... Tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!

Que caminho triste, e que viagem!  Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham...
Pequenino, acorda!  Recupera o alento,
Foge das cobiças dessas fundas valas
A pedir que as encham.

Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãe ao seio chama o filho... A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noite;
Por aqui só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre... É a hora
Do cair da noite...

Pela Ave-Maria, como procuravas
Tua mãe!... Num eco de sua voz piedosa,
Que suaves coisas que tu murmuravas,
De mãozinhas postas, a rezar com ela...
Pequenino, em casa, tua mãe saudosa
Reza a sós... É a hora quando a procuravas...
Vai rezar com ela!

Depois... Teu quarto era tão lindo!  Havia
Na janela jarras onde abriam rosas;
E no meio a cama, toda alvor, macia,
De lençóis de linho no colchão de penas.
Que acordar alegre nas manhãs cheirosas!
Que dormir suave, pela noite fria,
No colchão de penas...

Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... Tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!

Por que estacam todos dessa cova à beira?
Que é que diz o padre numa língua estranha?
Por que assim te entregas a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Por que assim cada homem um punhado apanha
De caliça e espalha-a, debruçado à beira
Dessa cova funda?

Vais ficar sozinho no caixão fechado...
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! — Pequenino!... É tarde!...
Sobre ti cai todo esse montão que ao lado
Vai desmoronando...

Eis fechada a cova.  Lá ficaste... A enorme
Noite sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca...
Tão sozinho sempre por tamanha noite!...
Pequenino, dorme!  Pequenino dorme...
Nem acordes nunca!