Parou. A confiança de outrora havia desaparecido. Pensou em dar
meia-volta, ir embora, aparecer por lá outro dia. Enquanto estava certo por
ceder àqueles impulsos, contemplou mais uma vez o Pritaneu: Toda aquela suntuosidade,
a sua arquitetura clássica, o mármore, as esculturas sobre o jardim... Respirou
fundo, o peito encheu-se de coragem novamente. Passou pela porteira e foi indo
em direção a porta. Nem mesmo o cabelo cordialmente penteado, sua camisa
azul-leal, seu perfume importado com notas de caráter, ou seu sapato de couro
probiamente engraxado conseguiam disfarçar seu medo e insegurança. Trêmulo e
com o rosto cintilante, coberto de gotículas, deu início, com um certo
acanhamento, a um chorrilho de batidas na porta. Uma, duas, três, quatro... Já havia
perdido a conta de quantas vezes havia batido quando, enfim, viu alguém espiar
pelo olho mágico da porta. Ninguém a abriu.
Contudo, o homem honesto continuou com as batidas, intermitentemente,
durante horas, dias, semanas, meses... Eis que, para a sua surpresa, o homem
correto, visivelmente incomodado com tamanha insistência, abriu a porta com
certa truculência:
- O que você quer? - disse, de forma
ríspida.
Surpreso, sentindo-se amedrontado com a imagem daquele homem, disse,
entre gaguejos, estar em busca de um quarto no Pritaneu. Balbuciou sobre todas
as suas qualidades – qualidades estas que estavam presentes nele assim como no
homem estático a sua frente e na porta alí escancarada. Vendo a expressão
inflexível do homem correto, tentou seu golpe de sorte: “O Tempo! Com o Tempo o
senhor saberá do meu valor!” Viu o homem correto arregalar seus olhos, cruzar
os braços, olhar para cima, como quem estuda antes de tomar uma importante
decisão. Consentiu logo em seguida: “Tudo bem. O Tempo provará a sua
dignidade”.
Evitar que o Tempo fosse perdido. Não havia função mais extenuante do
que aquela. Contudo, sabia o homem honesto, que apenas através do Tempo
conseguiria algo com a Política. Segurando a corrente presa à coleira daquele
animal, ia, ao invés de conduzir, sendo conduzido pelo Tempo por toda a
vastidão daquela fazenda. Qual seria a raça do cão? Era a perguntava que fazia
diariamente a si mesmo sem jamais saber a resposta exata; sem saber se, de
fato, era um cão. Às vezes ele parecia-lhe robusto, com um Rottweiler; em
outras, parecia-lhe um inofensivo Poodle Toy. Jurava que, em certos momentos, o
vira em um tamanho hercúleo e com três cabeças. Suas dúvidas aumentavam ainda
mais quando alguém jurava se tratar de um cão alado: “O Tempo voa!”
Com o Tempo, o homem honesto passou a conquistar uma certa notoriedade
dentro do Pritaneu. Deixou de ocupar o quarto dos fundos, para receber, em
troca, uma suíte. Além disso, o homem correto, reconhecendo seus esforços,
designou-lhe a função de mestre de obras. Estava animado, isso o aproximaria
mais da Política. Havia a visto pela primeira vez em sua vida no dia em que lhe
foi dada a oportunidade de ocupar o quarto dos fundos do Pritaneu. Assustou-se
com a senilidade daquela senhora cuja diziam ter sangue grego: sua pele rugosa,
seus olhos opacos devido à catarata, seus cabelos brancos como o mármore
presente em todos os cantos daquela casa, a postura arcada, sempre segurando a
sua bengala. “Quantos anos tem essa velha? Cem, duzentos, quinhentos, mil,
dois-mil...?” Perguntava-se.
Durante um momento de reflexão enquanto caminhava pela fazenda, notando
o quão desgastada e frágil se encontrava a cerca que demarcava o seu perímetro,
percebeu que a qualquer momento uma raposa poderia atravessá-la, entrar no
galinheiro e... Decidiu tomar uma providência: construir, no lugar da cerca, um
muro, o maior que pudesse ser construído, para acabar com qualquer
possibilidade de uma raposa entrar ali. Mulos e mais mulos vindos de outras
fazendas ajudavam com a construção desse muro.
Em uma noite tempestuosa, a Política lhe fez uma revelação que
representara o início de seu fim: estava grávida. Desesperou-se. Caminhava
inquietamente de um lado para o outro. Não fazia ideia do que fazer, do que
pensar. Deu asas a uma série de delírios de sua mente.
- O filho não é meu! Todos aqueles
homens... – Tentava, inutilmente, enganar a si mesmo.
Naquela noite, e nas demais noites seguintes, mal conseguia pregar os
olhos, um turbilhão de pensamentos e conjecturas lhe atormentavam a todo o
instante. Começou com uma série de insistentes pedidos a velha para que ela
abortasse, argumentando, cinicamente, estar pensando na saúde dela. Uma senhora
de não-sei-lá-quantos anos não deveria dar a luz a uma criança, é perigoso aos
dois e... Insistia com seus apelos, procurando mostrar-se preocupadíssimo com o
bem-estar da Política, quando, na realidade, pensava apenas em si. A velha
rechaçou qualquer possibilidade de aborto, dizendo, inclusive, já ter decidido
o nome da criança: Verdade. Aquelas noites insones na qual o homem honesto
compadecia se tornaram regra nos nove meses seguintes, apesar de seu
conformismo diante da paternidade do nascituro. Pessoas próximas logo souberam
da Verdade, e comentavam aos cantos:
- Está ferrado!
- É, mas acho que ele dá um jeito...
Em uma madrugada na qual jamais esqueceria, a velha o acordou aos
berros, com as mãos em seu ventre rotundo e imenso. Havia chegado o momento: a
criança estava prestes a nascer; a Verdade viria à tona. O homem honesto
levantou-se em um pulo, e foi correndo chamar alguma parteira. Não daria tempo,
logo percebeu ao ouvir os berros excruciantes da velha. Decidiu que ele mesmo
auxiliaria no parto. Pegou todos os aparatos que lhe vieram à mente no momento
e que poderiam ser necessários. Correu de volta ao quarto. Posicionou-se entre
as pernas esqueléticas daquela velha senhora. Enquanto ela urrava de dor, viu
sair dois pequenos pés rosados: mal sinal. Apesar de toda a sua preocupação,
manteve a calma, e logo viu um diminuto corpo feminino em suas mãos. O perigo
permanecia. O crânio ainda estava preso, havia o risco da asfixia. Aflito, viu
a velha dar seu último suspiro de força, quando, enfim, o crânio do nascituro
saiu. Ao ver a face da Verdade, viva, em seus braços, empalideceu-se. Arregalou
os olhos. Ficou boquiaberto. O susto foi tamanho que o corpo esqueceu-se de
inspirar e expirar o ar naturalmente. A criança em seus braços, sua filha,
possuía um único e avantajado olho, alinhado verticalmente ao nariz. Tornou-se
coberto pelo pânico. “O que será de mim se todos virem como a Verdade é
grotesca?!” Foi o primeiro pensamento que lhe veio a mente quando conseguiu
recobrar seu raciocínio. Tomado pelo desespero, agiu com convicção: cortou o
cordão umbilical e, no mesmo instante, saiu carregando aquela ignóbil recém-nascida
em direção a porta de entrada. Fora de casa, pensava qual seria a melhor forma
de dar um fim na Verdade. Foi quando se deu conta do Tempo. Levou aquela
pequena monolho, nua e ainda ensebada, até o cão. Voltou depressa para o
Pritaneu. “O Tempo a tudo devora; há de fazer o mesmo com a Verdade.” Trancou a
porta e sentou-se no sofá, ainda trêmulo, sabendo que seus problemas estavam
longe de terem fim. “Todos querem conhecer a Verdade. E se souberem o que eu
fiz com ela?! Ninguém jamais poderá saber da Verdade!” Desamparado, pôs-se a
chorar copiosamente. “O que eu faço agora?!” Súbito, ouviu um chorrilho de
batidas na porta. Estremeceu. Quem seria?! Caminhou vagarosamente até a porta,
e pôs-se a olhar pelo olho mágico. Não viu ninguém. Decidiu por abri-la cautelosamente.
Avistou então, aos seus pés, uma cesta enfeitada com um laço de fita, e dentro
dela, envolto a uma espessa manta, um rostinho róseo com um hipnotizante par de
olhos azuis. Ficou encantado. Em meio àquela manta havia um pequeno bilhete,
que, ao abri-lo, leu a única palavra ali escrita: Mentira. “Deve ser seu nome”,
pensou o homem honesto, que, ao mesmo instante, apanhou a cesta, sem se
perguntar quem a havia deixado ali, e rapidamente a levou para dentro da casa.
No dia seguinte, estava junto às duas paixões de sua vida, as razões de
sua glória: a Política e a Mentira. Exibiu aquela que adotara como filha a
todos que conhecia, apresentando-a como “Verdade”. Ao verem aquelas afáveis
bochechas rosadas e aquele pequeno par de safiras, exclamavam piamente: “Como é
linda a Verdade!” Já a Política, que nada podia enxergar, também acreditava que
a Mentira fosse, de fato, a Verdade. Os lapsos de memória, comuns àquela idade,
fazia com que ela sequer recordasse de ter dado a luz, ou do fato de ter carregado
em seu ventre um feto nos nove meses anteriores. Estava lisonjeiramente bem
vestida, exalando um primoroso ar de contentamento, aparentando nunca antes ter
se sentido tão bem como naquele momento.
A euforia causada pela Mentira foi tamanha que o homem honesto acabara
esquecendo-se da Verdade. Não havia com que se preocupar, pensava, há essas
horas, o Tempo já haveria dado um fim a ela. Engano seu: o animal, demonstrando
um enigmático senso de afetuosidade, não só deixou de devora-la como também a levou
até o canavial, mantendo-a escondida e segura naquele labirinto de caniços
emaranhados, como se seu instinto animal o precavesse da perversidade dos
homens que tentariam, de todas as formas, acabar com a Verdade.
Devido a decrepitude de seus muitos anos, a Política era pouco cuidadosa
com a Mentira, fazendo com que o homem honesto, assumindo tanto o papel paterno
quanto materno, se desdobrasse para mantê-la: era ele quem a alimentava; quem a
vestia; e quem a mantinha aquecida em seu braços tenros.
Em meio à terra árida e milhares de plantas
delgadas, foi o Tempo o responsável por manter viva a Verdade: amamentava-a e
mantinha seu pequeno e roliço corpo nu aquecido em sua pelugem.
A Mentira se mostrava prodigiosa: aprendera precocemente a portar-se
ereta, locomovendo-se com seus pequeninos pés por todo o Pritaneu. Assim como
não tardou a balbuciar suas primeiras palavras; a entender o significado de
letras aglutinadas e da lógica por trás de números interpostos. A cada dia, o
homem honesto orgulhava-se cada vez mais de sua Mentira.
A Verdade mostrava-se rude; selvagem devida a sua criação: caminhava
sobre quatro apoios por todo o canavial; cavoucava a terra; quando o couro
comichava, aliviava-se com seus dentes; só se comunicava através de latidos,
grunhidos e uivos. Apesar de jamais ter aprendido a pronunciar uma palavra
sequer, a Verdade era capaz de dizer tudo.
A Mentira a tudo exigia, e homem honesto desdobrava-se para atender as
suas demandas. Caso relutasse em satisfazê-la, a mimada garota ameaçava berrar
tão alto, mas tão alto, que todos que estivessem naquela fazenda haveriam de
ouvi-la. Tão autoritário dentro de cada metro quadrado daquelas terras, o homem
honesto mostrava-se submisso a Mentira, cedendo a todas aquelas torpes ameaças.
A única coisa que a Verdade desejava era a sua liberdade, sempre
ameaçada após correrem boatos sobre uma besta quadrúpede de um olho só que
vivia nos arredores do canavial. Vieram aos montes, munidos de foices e toras
de madeira, homens determinados a exterminarem a Verdade. Mas lá estava o
animal responsável por sua criação, com seu porte colossal e suas três cabeças,
sempre a protegê-la de qualquer ameaça. E assim seria durante anos: o Tempo foi
o guardião da Verdade até o dia em que ela pôde andar com suas próprias pernas.
Cumprindo sua promessa feita há anos atrás, o homem correto regressou de
suas férias em uma previsível manhã ensolarada. O homem honesto, que tinha
total consciência de que tal retorno se sucederia, arrumou suas malas, decidido
que agora era ele quem necessitava de umas boas férias. Saiu pela porta da
frente com um ar triunfante, levando a Mentira pelas mãos. Foram juntos, pai e
filha, curtirem o período de férias bem próximo dali.
Retornaram ao Pritaneu após oito anos. Cumprindo sua parte no acordo de
cavalheiros, o homem correto partiu mais uma vez para suas merecidas férias,
deixando ao homem honesto a Política e o quarto principal que outrora ocupara.
De volta àquele recanto que lhe era tão familiar, contemplou a paisagem da
janela: viu, ao horizonte, inúmeros palacetes portentosos e luxuosos, e tantos
outros ainda em construção que se perdia a conta; viu charretes e mais
charretes circulando incessantemente sobre as estradas de terra, levantando uma
densa neblina de poeira; viu o abatedouro, que ampliara de tamanho e recebia,
durante o crepúsculo da manhã, uma quantidade indecifrável de carretas vindas
das fazendas vizinhas abarrotadas de bovinos que, desolados, aguardavam
estoicamente serem dilacerados para virarem mercadoria em algum canto, embalada
e pronta para o consumo; viu o estábulo dos suínos, que continuavam comendo a
lavagem regurgitada; viu o muro, muito maior que há oito anos, e prometeu
ambiciosamente a si mesmo fazer dele uma muralha que pudesse ser vista da lua.
Mas viu algo que o deixara inconformado: havia incontáveis mulos transitando
por todos os cantos da fazenda, comendo muito pasto, bebendo a água translúcida
do caudaloso riacho e ainda – veja só o absurdo – defecando aos montes sobre a
relva seca. Decidiu agir: expulsou todos aqueles mulos de sua fazenda
definindo, por decreto, que nenhum equino viveria sobre a proteção daquele
muro, exceto aqueles em que o couro estivesse marcado pelo ferrete.
O boato que rondava a fazenda sobre a Verdade, que caíra no esquecimento
nos oito anos anteriores, voltou a ganhar força. Aquela história em que todos
imaginavam não passar de uma lenda urbana foi perdendo seus ares de ficção a
medida em os dias corriam, e a Verdade – que sempre foi real – ia se
agigantando, de forma que até mesmo a imensidão do canavial tornara-se pouco
para ela. Novamente, homens e mais homens foram armados até o canavial para
acabar com o ciclope quadrúpede que diziam estar ainda maior do que em outros
tempos.
A Mentira também se tornou alvo de boatos: havia quem custasse a
acreditar que ela fosse real, tamanho era o seu arrebatamento; sua estonteante
e contraditória beleza era o retrato de toda a malícia da inocência contida
nela: a maturidade do corpo marcado por expressivas curvaturas em meio a seus
curtos membros de criança; os pômulos do rosto, inflados, davam um tom infernal
aos seus olhos azul-celeste; um lúcido sorriso capaz de esvair a lucidez de
qualquer homem; e em tudo aquilo que a natureza não lhe fora generosa,
arrumava-se uma forma de mascarar: a baixa estatura devida às pernas curtas era
amenizada com tamancos salto alto; a proeminência de rugas e o nascimento de
fios grisalhos – que, estranhamente, já a sondavam – eram escondidas por trás
de uma segunda pele feita à base de cosméticos e tinturas amoniacais,
respectivamente. Se a alguém fosse possível observar, notaria que o crescimento
desembestado da Verdade e o envelhecimento precoce da Mentira ocorriam de forma
sincrônica; mas tal observação viria a ser feita apenas pelo homem honesto, ao
mesmo instante em que notasse que o Tempo voa.
Apesar de jamais ter deixado de estar próximo da Política naqueles oito
anos anteriores, o homem honesto desejava compensar-se por cada segundo em que
ficara longe do Pritaneu. Usando, novamente, o dinheiro resguardado pela
Política, promoveu diversas esbórnias, sempre regadas a muito champanha e
convidados inescrupulosos. Aquelas reuniões imorais; aquela bacanal orquestrada
pela Política não era, nem nunca fora, novidade naquela casa; contudo, jamais
se vira tantos convidados como naquelas promovidas pelo homem honesto. O
Pritaneu enchia-se de homens buscando prazeres com a Política – um deles,
inclusive, conhecido naquelas redondezas por sua fé e por enxergar muito bem,
tornou-se íntimo tanto do homem honesto quanto da Política.
O trágico fim do homem honesto veio no momento em que a Verdade pôde
andar com as próprias pernas. Após anos de fuga, a Verdade passou a confrontar
os homens que tentavam, de todas as formas, sepultá-la: já nos anos anteriores,
passou a imita-los, buscando portar-se em riste. Ao conseguir manter-se ereta,
empenhava-se a dar seus primeiros passos; de início, com dificuldades, mas não
tardou para que ela aprendesse, não só a andar perfeitamente, como também a
correr com ligeireza. Postando-se de forma impávida, poucos homens ousaram
combate-la; estes, logo foram engolidos. Quando a Verdade deixou de estar
oculta e cruzou toda a fazenda, as reações demonstravam-se bem diversificadas:
havia aqueles, já citados, que tentavam, de todas as formas, combate-la;
outros, temendo ser devorados, fugiam o mais depressa possível; alguns,
incrédulos, recusavam-se a acreditar naquilo que seus olhos viam; alguns
outros, por incapacidade ou falta de interesse, de fato não viam a Verdade. Como
se estivesse sendo guiada por um senso de vingança instintiva, aquela criatura
homérica, nua e opulenta, correu a passos largos em direção ao Pritaneu. Logo
que foi possível ouvir o estrondo das pegadas, todos aqueles que se saturavam
na farra da Política promovida pelo homem honesto foram cobertos pelo pânico.
Em um alvoroço súbito, saíram todos de forma desgovernada, aos murros e
pontapés. Acelerados pelo medo tratavam de todas as maneiras escaparem da
Verdade; alguns, invariavelmente, acabaram sendo engolidos.
Após aquela fuga em massa, o homem honesto viu-se solitário no Pritaneu.
Até mesmo a Política o abandonara. Enquanto ouvia o estrondo e sentia o abalo
das pegadas cada vez mais intensos tentou, a princípio, fugir como os outros.
Percebendo que seria inútil, tentou esconder-se em algum quarto; foi neste
momento que se lembrou de sua filha. Sabendo que ela jamais o abandonaria,
partiu em busca da Mentira. Ao entrar em seu quarto, foi tomado pelo espanto.
Deparou-se com uma senhora esquelética, em um lastimável estado de decrepitude:
os poucos fios que restavam no couro cabeludo haviam perdido toda a coloração;
a elástica pele estava repleta de fissuras; já não possuía um único dente em
sua boca; entrevada, como alguém que não consegue manter-se em pé, estava
recolhida em um canto do quarto. Pensou ter se reencontrado com a Política, mas
logo reconheceu a filha ao fitar seu olhar inigualável. Aos prantos, abraçou-a
vigorosamente com todo o seu amor, sabendo que a Mentira era tudo o que lhe
restava. Olhou para a janela e viu o Tempo, sacudindo suas asas em direção ao
horizonte. Tudo fazia sentido agora. Manteve-se estoico quando uma colossal mão
fria e calejada agarrou a ambos. Levados em direção a uma nidorosa fossa úmida
e estreita, pai e filha precipitaram-se goela abaixo. O homem honesto e a
Mentira morreram abraçados, engolidos pela Verdade.
Ladrão, ladrãozinho seu ladrão
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