quinta-feira, 25 de maio de 2017

URETROCISTOGRAFIA

  Sobre a mesa, Milena se contorce, torce, resmunga, choraminga, espia, chia. Masca o bico da chupeta cor-de-rosa; e na fralda presa a ela, embola suas mãos miúdas.
  Milena se descontenta, se atormenta, se incomoda, deitada, sob o olhar da ampola de raio-x, que parece fitar o âmago de sua alma. Um trambolho amarelado, desgastado, ultrapassado que se mantém estático três palmos acima de seu corpo. Um apanhador de pesadelos.
  Milena se agita, e descobre – mesmo sem fazer descoberta alguma – a marca que a liga à Eva.
  “Não, deixa assim! Cobre a perereca. Isso, cobre a perereca.” Colocando novamente o translúcido lenço rosado sobre aquela pequena fenda, sua mãe tenta persuadi-la sobre os mandamentos do pudor, enquanto se mantém coberta por espessos colar e colete, ambos de chumbo, azuis, mais pesados do que a criança que outrora se debatia da mesma maneira em seu ventre.
  “Deixa a perereca coberta!”
  Mas vinte meses de vida foram pouco para lecionar a Milena sobre o constrangimento de ser fitada por olhos curiosos.
  Súbito, a porta da sala começa com um frenético vai-e-vem. Um casal robusto se aproxima da mesa em que Milena está deitada sendo aparada por sua mãe. “Segura as mãozinhas dela assim, por cima da cabeça” diz a mulher robusta, de pele negra e tom afetuoso, enquanto o enfermeiro segura, unidos, os pequenos pés de Milena. Um homem de jaleco, fios grisalhos, expressão abatida e de passadas largas e rápidas, que há poucos instantes entrou na sala, coloca uma placa de fósforo sobre o chassi, sob a mesa em que está Milena; vai em direção a cabine de chumbo que possui um revestimento cafona de textura de madeira, aonde o comando o aguarda pacientemente; ajeita nos botões o flash daquela fotografia radioativa: 320 mA, 5.5 mAs, 6.6 kV, para logo em seguida levar seu indicador até o botão vermelho na lateral do comando e apertá-lo. A polivalente máquina de raio-x rui e dispara um feixe de luz em direção ao abdome da pequena Milena, ultrapassando e se acoplando em seu corpo, mesa e placa de fósforo; ricocheteando elétrons por toda a sala, que atingem e resvalam nas paredes, na câmara de chumbo, nos colares e nos coletes, em sua mãe, no enfermeiro que a auxilia. Um raio de luz tão forte que foi capaz de deixar todos da sala cegos em relação a sua luminosidade.

  Terminado o processo, o técnico então sai de trás da câmara com a mesma pressa com a qual entrou. Aproxima-se da mesa aonde está Milena, cercada por sua mãe e pelo enfermeiro, mas tudo o que consegue enxergar é a placa de fósforo que anteriormente colocou sobre o chassi. Parece que após tantos anos disparando aquela luz, ela o cegou em relação as pessoas. Apressado, pega a placa contendo a imagem de Milena e se retira da sala tão rápido quanto o raio em que é especialista em disparar.