Sobre a mesa, Milena
se contorce, torce, resmunga, choraminga, espia, chia. Masca o bico da chupeta
cor-de-rosa; e na fralda presa a ela, embola suas mãos miúdas.
Milena se
descontenta, se atormenta, se incomoda, deitada, sob o olhar da ampola de
raio-x, que parece fitar o âmago de sua alma. Um trambolho amarelado,
desgastado, ultrapassado que se mantém estático três palmos acima de seu corpo.
Um apanhador de pesadelos.
Milena se agita, e
descobre – mesmo sem fazer descoberta alguma – a marca que a liga à Eva.
“Não, deixa assim! Cobre a perereca. Isso,
cobre a perereca.” Colocando novamente o translúcido lenço rosado sobre aquela
pequena fenda, sua mãe tenta persuadi-la sobre os mandamentos do pudor,
enquanto se mantém coberta por espessos colar e colete, ambos de chumbo, azuis,
mais pesados do que a criança que outrora se debatia da mesma maneira em seu
ventre.
“Deixa a perereca
coberta!”
Mas vinte meses de
vida foram pouco para lecionar a Milena sobre o constrangimento de ser fitada
por olhos curiosos.
Súbito, a porta da
sala começa com um frenético vai-e-vem. Um casal robusto se aproxima da mesa em
que Milena está deitada sendo aparada por sua mãe. “Segura as mãozinhas dela
assim, por cima da cabeça” diz a mulher robusta, de pele negra e tom afetuoso,
enquanto o enfermeiro segura, unidos, os pequenos pés de Milena. Um homem de
jaleco, fios grisalhos, expressão abatida e de passadas largas e rápidas, que há
poucos instantes entrou na sala, coloca uma placa de fósforo sobre o chassi,
sob a mesa em que está Milena; vai em direção a cabine de chumbo que possui um
revestimento cafona de textura de madeira, aonde o comando o aguarda
pacientemente; ajeita nos botões o flash daquela fotografia radioativa: 320 mA,
5.5 mAs, 6.6 kV, para logo em seguida levar seu indicador até o botão vermelho
na lateral do comando e apertá-lo. A polivalente máquina de raio-x rui e
dispara um feixe de luz em direção ao abdome da pequena Milena, ultrapassando e
se acoplando em seu corpo, mesa e placa de fósforo; ricocheteando elétrons por
toda a sala, que atingem e resvalam nas paredes, na câmara de chumbo, nos colares
e nos coletes, em sua mãe, no enfermeiro que a auxilia. Um raio de luz tão
forte que foi capaz de deixar todos da sala cegos em relação a sua
luminosidade.
Terminado o
processo, o técnico então sai de trás da câmara com a mesma pressa com a qual
entrou. Aproxima-se da mesa aonde está Milena, cercada por sua mãe e pelo enfermeiro,
mas tudo o que consegue enxergar é a placa de fósforo que anteriormente colocou
sobre o chassi. Parece que após tantos anos disparando aquela luz, ela o cegou
em relação as pessoas. Apressado, pega a placa contendo a imagem de Milena e se
retira da sala tão rápido quanto o raio em que é especialista em disparar.
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