quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

UM TEXTO PSEUDO-MOTIVACIONAL DE FIM-DE-ANO

Há quase dez anos eu fui acusado injustamente de ser um plagiador pela minha professora de português.
Ela era professora eventual e havia passado uma atividade de produção de texto com o tema relacionado à conservação da natureza, ou coisa assim. Eu estava na 6ª série, e desde sempre amava produções de texto: era uma das raras oportunidades de se poder estimular a criatividade na escola. O título do texto que escrevi era "O Grego Centenário". Era sobre um grego centenário - "deeeer" - que se dedicava a cuidar de seu jardim sem nenhum arrependimento sobre a vida que havia levado, falando sobre espécies de flores e fazendo referências a divindades da mitologia grega. Não era o tipo de texto que se espera de alguém de 11-12 anos, ainda mais da rede pública.

Algumas semanas depois da entrega dos textos, recebo ele corrigido, com um "5,0" no topo, acompanhado de um "Não era pra copiar!"
Fiquei arrasado!
Um 5,0 era uma nota tenebrosa pra mim naquele tempo - naquele tempo -, ainda mais acompanhado daquele recado. Eu me senti tremendamente injustiçado. Reclamei para um amigo, meu único, e ele ficou tão inconformado quanto eu, sugerindo que fossemos reclamar com ela.
Não quis.
Tive medo que, por uma estranha coincidência, eu tivesse escrito um texto muito parecido com algum já escrito por alguém, em algum momento, em alguma parte do mundo. Mas meu maior medo, sendo o tímido que sou, era reclamar algo com alguém. Talvez só os tímidos me entendam aqui, mas muitas vezes preferimos sair injustiçados, do que fazer o esforço homérico que é para nós recorrer contra essa injustiça. 

E porque eu estou contando essa história que nada interessa a vocês?! É porque se, naquele momento, eu me senti completamente triste e impotente, hoje eu sinto orgulho desse episódio: o fato de a professora ter achado que eu tivesse plagiado o texto, só me mostra que desde cedo eu tive uma certa aptidão literária, e pensar nisso me faz nunca querer desistir de seguir tal inclinação, por mais ingrata e tortuosa que ela me pareça.
Talvez você esteja, neste exato momento, passando algum momento de grande tristeza, sentindo-se fraco, humilhado, incapaz de perseguir a felicidade que cada vez se afasta mais ao horizonte. Mas existe outro você, em alguma parte do futuro, que está se lembrando do atual momento em que você se encontra com um sorriso de canto de lábio, completamente orgulhoso de sua resiliência, por ter conseguido passar pelos momentos mais difíceis quando eles pareciam impossíveis de serem vencidos. É totalmente compreensivo com sua tonelada de erros, pois foram eles que te mostraram os caminhos certos a seguir, e as pessoas certas a te acompanhar neles.
E você está lá, no futuro, com a mesma paz de espírito e satisfação do meu grego centenário, rindo da própria tolice por ter pensado que essa sua tristeza fosse mais eterna que você (Chegue você aos cem anos ou não).





Um feliz Natal e próspero ano novo para você,
que, vez ou outra,
aparece aqui pelo blog!
(Para aqueles que não aparecem também,
mas que o de vocês sejam melhores.)

Até 2018!

domingo, 5 de novembro de 2017

[REDAÇÃO ENEM] DESAFIOS PARA A FORMAÇÃO EDUCACIONAL DE SURDOS NO BRASIL

  A professora repete, mais uma vez, o conteúdo para a classe agitada e dispersa. Entre a turma, sentado em frente à mesa da professora, está um menino tímido e ensimesmado, que tenta compreender a aula lendo os lábios da tutora, mas logo desiste, porque ela sempre para a explicação para chamar a atenção de algum aluno ou da classe no geral. Seus colegas de turma não sabem como se comunicar com ele, gesticulando de forma frenética e confusa; e alguns deles, provocativos, fazem caretas ou dirigem a ele gestos obscenos. Seus pais também possuem dificuldades de se comunicar com ele, pois ainda estão aprendendo a língua dos sinais. Como esperar que essa criança, desamparada em todos os sentidos, tenha um bom desempenho escolar?!
  As escolas brasileiras, especialmente as públicas, na maioria das vezes falham em dar apoio educacional a seus alunos, como demonstra os resultados de testes de avaliação nacionais e internacionais, e esse fosso é ainda maior quando se trata de alunos deficientes: os profissionais da educação, muitas vezes, não sabem como lidar com a maioria delas, como a surdez, não sabendo o básico para o uso de Libras. E se eles não sabem, quem dirá os alunos, que muitas vezes tratam seus colegas deficientes auditivos com hostilidade, pois não sabem como se relacionar com eles. Contudo, são os pais que lidam com o mais difícil: reconhecer ainda cedo a deficiência e buscar apoio, tanto para o filho, quanto para eles próprios.
  Não existem soluções imediatas para esses problemas. Contudo, as esferas governamentais poderiam tomar a dianteira do processo: a obrigatoriedade, por lei, da inserção do ensino de Libras em cursos superiores de pedagogia e de docência, além de avaliações regulares dos profissionais. O ensino de Libras como matéria optativa no ensino básico também poderia ser proposto, aumentando o conhecimento da população sobre a linguagem. Porém, são os produtores de entertenimento que possuem o maior alcance das massas: as novelas poderiam retratar a surdez sem tabus, como fez as novelas Páginas da Vida e A Força do Querer com a Síndrome de Down e a transexualidade, respectivamente. O filme Rain Man expandiu o entendimento popular sobre o autismo. No ramo infantil, a Turma da Mônica mostrou seu lado inclusivo, dando espaço para personagens deficientes, como o *Mudinho. Assim como o Mudinho merece espaço na Turma, a surdez merece a atenção do Brasil.



*Mudinho?! Se você conhece TdM deve ter estranhado. O nome do personagem é Humberto, e eu só fui me recordar disso no caminho para casa. O que não fazem mais de 10 anos de fim-de-infância...

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A GERAL RELATIVIDADE DA TEORIA

Sob o negro e espesso bigode,
o dedo atrita contra a língua.
As partículas na saliva,
bailando na ponta do dedo
em movimentos brownianos,
unem-se a página virada
da patente solicitada.

A lâmpada suspensa ao teto
bombardeia seus quantas de luz
(trezentos mil km por segundo)
sobre o cabelo desgrenhado
do hom’em inércia frente à mesa
repleta de pilhas de papel,
tanto massivas, quanto enérgicas.

De súbito, ele observa atônito
um Gedankenexperiment:
onde um elevador em queda livre,
sendo atraído pela gravidade,
possui, dentro, um homem aprisionado.
Suspenso em meio ao ar,
acrescido de massa,
porém sem qualquer peso.
A levitar, iluminado,
em repouso sobre a cadeira,
modificando e distorcendo
todo o espaço-tempo da História.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

ÂNSIA E IDADE

O coração puxa e solta o sangue que circula das artérias as veias que pulsam no pulso os ponteiros do relógio correm pois o globo rodopia e permaneço parado a todo o tempo atento a tudo tento tanto não estar tonto contudo tudo está girando e ando bambeando até vir a cair do chão os vejo elevando voo sempre amados emplumados de sorte sob as asas os louros e ouros nos ninhos cantam contentes com seus entes e tudo que possuo é o passar do tempo que traz a peremptória batida do meu coração acelera as batidas e abatido sinto ânsia a ansiedade que a idade me fez gestante é uma filha que mexe e remexe e chuta e soca e nunca nasce

sexta-feira, 16 de junho de 2017

VIVO OU MORTO

         Vivo!   
                           Morto!                         
 Vivo!         
                        Morto!                      
                         Morto!                         
    Vivo!

Vivo,
não vivo vivo,
nem morto,
mas vivo morto;
não morto-vivo:
morto, vivo.
Vivo um morto que morto, vivo,
morto o vivo:
vivo-morto.

Vivo?   
   Morto.      
Morto?!
   Morto:     
   aborto...  

quinta-feira, 25 de maio de 2017

URETROCISTOGRAFIA

  Sobre a mesa, Milena se contorce, torce, resmunga, choraminga, espia, chia. Masca o bico da chupeta cor-de-rosa; e na fralda presa a ela, embola suas mãos miúdas.
  Milena se descontenta, se atormenta, se incomoda, deitada, sob o olhar da ampola de raio-x, que parece fitar o âmago de sua alma. Um trambolho amarelado, desgastado, ultrapassado que se mantém estático três palmos acima de seu corpo. Um apanhador de pesadelos.
  Milena se agita, e descobre – mesmo sem fazer descoberta alguma – a marca que a liga à Eva.
  “Não, deixa assim! Cobre a perereca. Isso, cobre a perereca.” Colocando novamente o translúcido lenço rosado sobre aquela pequena fenda, sua mãe tenta persuadi-la sobre os mandamentos do pudor, enquanto se mantém coberta por espessos colar e colete, ambos de chumbo, azuis, mais pesados do que a criança que outrora se debatia da mesma maneira em seu ventre.
  “Deixa a perereca coberta!”
  Mas vinte meses de vida foram pouco para lecionar a Milena sobre o constrangimento de ser fitada por olhos curiosos.
  Súbito, a porta da sala começa com um frenético vai-e-vem. Um casal robusto se aproxima da mesa em que Milena está deitada sendo aparada por sua mãe. “Segura as mãozinhas dela assim, por cima da cabeça” diz a mulher robusta, de pele negra e tom afetuoso, enquanto o enfermeiro segura, unidos, os pequenos pés de Milena. Um homem de jaleco, fios grisalhos, expressão abatida e de passadas largas e rápidas, que há poucos instantes entrou na sala, coloca uma placa de fósforo sobre o chassi, sob a mesa em que está Milena; vai em direção a cabine de chumbo que possui um revestimento cafona de textura de madeira, aonde o comando o aguarda pacientemente; ajeita nos botões o flash daquela fotografia radioativa: 320 mA, 5.5 mAs, 6.6 kV, para logo em seguida levar seu indicador até o botão vermelho na lateral do comando e apertá-lo. A polivalente máquina de raio-x rui e dispara um feixe de luz em direção ao abdome da pequena Milena, ultrapassando e se acoplando em seu corpo, mesa e placa de fósforo; ricocheteando elétrons por toda a sala, que atingem e resvalam nas paredes, na câmara de chumbo, nos colares e nos coletes, em sua mãe, no enfermeiro que a auxilia. Um raio de luz tão forte que foi capaz de deixar todos da sala cegos em relação a sua luminosidade.

  Terminado o processo, o técnico então sai de trás da câmara com a mesma pressa com a qual entrou. Aproxima-se da mesa aonde está Milena, cercada por sua mãe e pelo enfermeiro, mas tudo o que consegue enxergar é a placa de fósforo que anteriormente colocou sobre o chassi. Parece que após tantos anos disparando aquela luz, ela o cegou em relação as pessoas. Apressado, pega a placa contendo a imagem de Milena e se retira da sala tão rápido quanto o raio em que é especialista em disparar.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

AUTÓPSIA

 Morri, de repente
A alma, ausente
O corpo, presente
De costas planas, cá estou estirado
Coberto por um fino e alvo lençol
Pensamentos banhados em formol
E o restante, deteriorado

De tudo, nada se aproveita em mim
Pâncreas, rins, fígado, estômago
Os dias de embriaguez sem fim
Trouxeram-lhes permanente estrago
O sangue que trafega por artérias e veias
Irriga meus músculos cobertos por teias
Rígido e frágil está meu par de braços
Que não fazem mais laços naqueles abraços
Frouxas e bambas estão minhas pernas
Por suportar o peso de angústias eternas

Minhas narinas estão surdas
Meus ouvidos, entupidos
Perfume adocicado, palavras cálidas
Desnortearam por completo os meus sentidos
Minha língua, seca, não sentiu o gosto do amor
Meu genital, frio, não gozou da troca de calor
E meus olhos, veja, nada enxergam
Não avistam os infortúnios que me cercam
As imagens nascem nessa densa massa rugosa
Lembranças, ilusões e sonhos cor-de-rosa
E uma questão ainda me intriga:
Se meu coração nunca bateu tanto antes
Encarando tal conflito com unhas e dentes
Porque somente ele sai ferido nessa briga?

Por isso, suplico: nenhuma doação!
Enterre esse corpo finado, montante pífio
Sem a necessidade de adornos no caixão
Na lápide, grave o seguinte epitáfio:
“Doou-se por completo
Jaz aqui todo o resto.”

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O TRÁGICO FIM DO HOMEM HONESTO

   Parou. A confiança de outrora havia desaparecido. Pensou em dar meia-volta, ir embora, aparecer por lá outro dia. Enquanto estava certo por ceder àqueles impulsos, contemplou mais uma vez o Pritaneu: Toda aquela suntuosidade, a sua arquitetura clássica, o mármore, as esculturas sobre o jardim... Respirou fundo, o peito encheu-se de coragem novamente. Passou pela porteira e foi indo em direção a porta. Nem mesmo o cabelo cordialmente penteado, sua camisa azul-leal, seu perfume importado com notas de caráter, ou seu sapato de couro probiamente engraxado conseguiam disfarçar seu medo e insegurança. Trêmulo e com o rosto cintilante, coberto de gotículas, deu início, com um certo acanhamento, a um chorrilho de batidas na porta. Uma, duas, três, quatro... Já havia perdido a conta de quantas vezes havia batido quando, enfim, viu alguém espiar pelo olho mágico da porta. Ninguém a abriu.
   Contudo, o homem honesto continuou com as batidas, intermitentemente, durante horas, dias, semanas, meses... Eis que, para a sua surpresa, o homem correto, visivelmente incomodado com tamanha insistência, abriu a porta com certa truculência:
- O que você quer? - disse, de forma ríspida.
   Surpreso, sentindo-se amedrontado com a imagem daquele homem, disse, entre gaguejos, estar em busca de um quarto no Pritaneu. Balbuciou sobre todas as suas qualidades – qualidades estas que estavam presentes nele assim como no homem estático a sua frente e na porta alí escancarada. Vendo a expressão inflexível do homem correto, tentou seu golpe de sorte: “O Tempo! Com o Tempo o senhor saberá do meu valor!” Viu o homem correto arregalar seus olhos, cruzar os braços, olhar para cima, como quem estuda antes de tomar uma importante decisão. Consentiu logo em seguida: “Tudo bem. O Tempo provará a sua dignidade”.
   Evitar que o Tempo fosse perdido. Não havia função mais extenuante do que aquela. Contudo, sabia o homem honesto, que apenas através do Tempo conseguiria algo com a Política. Segurando a corrente presa à coleira daquele animal, ia, ao invés de conduzir, sendo conduzido pelo Tempo por toda a vastidão daquela fazenda. Qual seria a raça do cão? Era a perguntava que fazia diariamente a si mesmo sem jamais saber a resposta exata; sem saber se, de fato, era um cão. Às vezes ele parecia-lhe robusto, com um Rottweiler; em outras, parecia-lhe um inofensivo Poodle Toy. Jurava que, em certos momentos, o vira em um tamanho hercúleo e com três cabeças. Suas dúvidas aumentavam ainda mais quando alguém jurava se tratar de um cão alado: “O Tempo voa!”
   Com o Tempo, o homem honesto passou a conquistar uma certa notoriedade dentro do Pritaneu. Deixou de ocupar o quarto dos fundos, para receber, em troca, uma suíte. Além disso, o homem correto, reconhecendo seus esforços, designou-lhe a função de mestre de obras. Estava animado, isso o aproximaria mais da Política. Havia a visto pela primeira vez em sua vida no dia em que lhe foi dada a oportunidade de ocupar o quarto dos fundos do Pritaneu. Assustou-se com a senilidade daquela senhora cuja diziam ter sangue grego: sua pele rugosa, seus olhos opacos devido à catarata, seus cabelos brancos como o mármore presente em todos os cantos daquela casa, a postura arcada, sempre segurando a sua bengala. “Quantos anos tem essa velha? Cem, duzentos, quinhentos, mil, dois-mil...?” Perguntava-se.
Antes de vê-la pessoalmente, tudo o que sabia sobre a Política era através de boatos: ”Ela não tem escrúpulos!”; “Só gente de mau-caráter se envolve com ela!”; “Possui tanto por roubar de nós!” Todos a odiavam, pouca gente a conhecia de fato.
   Sempre recebendo um pouco mais do que deveria, o homem honesto tomou a frente da construção de um novo celeiro, reformou estábulos e autorizou a construção de mais moinhos e de um abatedouro. Eram tantas obras a serem realizadas que logo se deu conta de não haver animais de tração suficientes na fazenda para dar andamento a todas elas. O problema foi logo sanado: mulos e mais mulos de carga vinham de fazendas vizinhas para ajudar naquela profusão de obras. Famintos, cascos desgastados, ferraduras enferrujadas, mal dormiam, pouco se banhavam, um couro que refletia as marcas causadas pelo Tempo, que possuía certo gosto em mordiscá-los. No fim do dia, os mulos recebiam uma pequena porção de ração ressequida como recompensa por seus esforços. Todos aqueles canteiros de obras espalhados pela fazenda começaram a trazer prestígio e estima ao homem honesto, principalmente por parte da Política, que, entre o seu rol de amantes, passou a ser o mais pleiteado. Toda aquela imoralidade por debaixo dos panos que, a princípio lhe trazia certa temeridade, passou a ser gozada com máxima satisfação. Certo dia, o homem correto, exausto, tanto fisicamente, como psicologicamente, decidiu que tiraria suas merecidas férias bem próximo dali, mas não sem antes fazer sua anunciação profética a todos os presentes no Pritaneu: “Eu voltarei! Eu sempre volto..!” A Política logo ofereceu a melhor oportunidade que o homem honesto receberia em vida: dividir o quarto principal junto a ela, ocupando a vaga deixada pelo homem correto. Com a sua nova posição no Pritaneu, julgou-se dono de tudo aquilo que estivesse dentro dos limites da cerca. Na fazenda, tratou de vender e alugar lotes de terras a barões que desejavam ali se instalar com seus portentosos palacetes ou ampliar o tamanho de seus engenhos. Mais mulos vindos de outras fazendas ajudavam com o trabalho pesado dessas obras. Demonstrou todo o seu altruísmo bancando, com o dinheiro resguardado pela Política, a tosa de todas as ovelhas da fazenda que, contentes, baliam agradecidas.
   Durante um momento de reflexão enquanto caminhava pela fazenda, notando o quão desgastada e frágil se encontrava a cerca que demarcava o seu perímetro, percebeu que a qualquer momento uma raposa poderia atravessá-la, entrar no galinheiro e... Decidiu tomar uma providência: construir, no lugar da cerca, um muro, o maior que pudesse ser construído, para acabar com qualquer possibilidade de uma raposa entrar ali. Mulos e mais mulos vindos de outras fazendas ajudavam com a construção desse muro.
   Em uma noite tempestuosa, a Política lhe fez uma revelação que representara o início de seu fim: estava grávida. Desesperou-se. Caminhava inquietamente de um lado para o outro. Não fazia ideia do que fazer, do que pensar. Deu asas a uma série de delírios de sua mente.
- O filho não é meu! Todos aqueles homens... – Tentava, inutilmente, enganar a si mesmo.
   Naquela noite, e nas demais noites seguintes, mal conseguia pregar os olhos, um turbilhão de pensamentos e conjecturas lhe atormentavam a todo o instante. Começou com uma série de insistentes pedidos a velha para que ela abortasse, argumentando, cinicamente, estar pensando na saúde dela. Uma senhora de não-sei-lá-quantos anos não deveria dar a luz a uma criança, é perigoso aos dois e... Insistia com seus apelos, procurando mostrar-se preocupadíssimo com o bem-estar da Política, quando, na realidade, pensava apenas em si. A velha rechaçou qualquer possibilidade de aborto, dizendo, inclusive, já ter decidido o nome da criança: Verdade. Aquelas noites insones na qual o homem honesto compadecia se tornaram regra nos nove meses seguintes, apesar de seu conformismo diante da paternidade do nascituro. Pessoas próximas logo souberam da Verdade, e comentavam aos cantos:
- Está ferrado!
- É, mas acho que ele dá um jeito...
   Em uma madrugada na qual jamais esqueceria, a velha o acordou aos berros, com as mãos em seu ventre rotundo e imenso. Havia chegado o momento: a criança estava prestes a nascer; a Verdade viria à tona. O homem honesto levantou-se em um pulo, e foi correndo chamar alguma parteira. Não daria tempo, logo percebeu ao ouvir os berros excruciantes da velha. Decidiu que ele mesmo auxiliaria no parto. Pegou todos os aparatos que lhe vieram à mente no momento e que poderiam ser necessários. Correu de volta ao quarto. Posicionou-se entre as pernas esqueléticas daquela velha senhora. Enquanto ela urrava de dor, viu sair dois pequenos pés rosados: mal sinal. Apesar de toda a sua preocupação, manteve a calma, e logo viu um diminuto corpo feminino em suas mãos. O perigo permanecia. O crânio ainda estava preso, havia o risco da asfixia. Aflito, viu a velha dar seu último suspiro de força, quando, enfim, o crânio do nascituro saiu. Ao ver a face da Verdade, viva, em seus braços, empalideceu-se. Arregalou os olhos. Ficou boquiaberto. O susto foi tamanho que o corpo esqueceu-se de inspirar e expirar o ar naturalmente. A criança em seus braços, sua filha, possuía um único e avantajado olho, alinhado verticalmente ao nariz. Tornou-se coberto pelo pânico. “O que será de mim se todos virem como a Verdade é grotesca?!” Foi o primeiro pensamento que lhe veio a mente quando conseguiu recobrar seu raciocínio. Tomado pelo desespero, agiu com convicção: cortou o cordão umbilical e, no mesmo instante, saiu carregando aquela ignóbil recém-nascida em direção a porta de entrada. Fora de casa, pensava qual seria a melhor forma de dar um fim na Verdade. Foi quando se deu conta do Tempo. Levou aquela pequena monolho, nua e ainda ensebada, até o cão. Voltou depressa para o Pritaneu. “O Tempo a tudo devora; há de fazer o mesmo com a Verdade.” Trancou a porta e sentou-se no sofá, ainda trêmulo, sabendo que seus problemas estavam longe de terem fim. “Todos querem conhecer a Verdade. E se souberem o que eu fiz com ela?! Ninguém jamais poderá saber da Verdade!” Desamparado, pôs-se a chorar copiosamente. “O que eu faço agora?!” Súbito, ouviu um chorrilho de batidas na porta. Estremeceu. Quem seria?! Caminhou vagarosamente até a porta, e pôs-se a olhar pelo olho mágico. Não viu ninguém. Decidiu por abri-la cautelosamente. Avistou então, aos seus pés, uma cesta enfeitada com um laço de fita, e dentro dela, envolto a uma espessa manta, um rostinho róseo com um hipnotizante par de olhos azuis. Ficou encantado. Em meio àquela manta havia um pequeno bilhete, que, ao abri-lo, leu a única palavra ali escrita: Mentira. “Deve ser seu nome”, pensou o homem honesto, que, ao mesmo instante, apanhou a cesta, sem se perguntar quem a havia deixado ali, e rapidamente a levou para dentro da casa.
   No dia seguinte, estava junto às duas paixões de sua vida, as razões de sua glória: a Política e a Mentira. Exibiu aquela que adotara como filha a todos que conhecia, apresentando-a como “Verdade”. Ao verem aquelas afáveis bochechas rosadas e aquele pequeno par de safiras, exclamavam piamente: “Como é linda a Verdade!” Já a Política, que nada podia enxergar, também acreditava que a Mentira fosse, de fato, a Verdade. Os lapsos de memória, comuns àquela idade, fazia com que ela sequer recordasse de ter dado a luz, ou do fato de ter carregado em seu ventre um feto nos nove meses anteriores. Estava lisonjeiramente bem vestida, exalando um primoroso ar de contentamento, aparentando nunca antes ter se sentido tão bem como naquele momento.
   A euforia causada pela Mentira foi tamanha que o homem honesto acabara esquecendo-se da Verdade. Não havia com que se preocupar, pensava, há essas horas, o Tempo já haveria dado um fim a ela. Engano seu: o animal, demonstrando um enigmático senso de afetuosidade, não só deixou de devora-la como também a levou até o canavial, mantendo-a escondida e segura naquele labirinto de caniços emaranhados, como se seu instinto animal o precavesse da perversidade dos homens que tentariam, de todas as formas, acabar com a Verdade.
   Devido a decrepitude de seus muitos anos, a Política era pouco cuidadosa com a Mentira, fazendo com que o homem honesto, assumindo tanto o papel paterno quanto materno, se desdobrasse para mantê-la: era ele quem a alimentava; quem a vestia; e quem a mantinha aquecida em seu braços tenros.
   Em meio à terra árida e milhares de plantas delgadas, foi o Tempo o responsável por manter viva a Verdade: amamentava-a e mantinha seu pequeno e roliço corpo nu aquecido em sua pelugem.
   A Mentira se mostrava prodigiosa: aprendera precocemente a portar-se ereta, locomovendo-se com seus pequeninos pés por todo o Pritaneu. Assim como não tardou a balbuciar suas primeiras palavras; a entender o significado de letras aglutinadas e da lógica por trás de números interpostos. A cada dia, o homem honesto orgulhava-se cada vez mais de sua Mentira.
   A Verdade mostrava-se rude; selvagem devida a sua criação: caminhava sobre quatro apoios por todo o canavial; cavoucava a terra; quando o couro comichava, aliviava-se com seus dentes; só se comunicava através de latidos, grunhidos e uivos. Apesar de jamais ter aprendido a pronunciar uma palavra sequer, a Verdade era capaz de dizer tudo.
   A Mentira a tudo exigia, e homem honesto desdobrava-se para atender as suas demandas. Caso relutasse em satisfazê-la, a mimada garota ameaçava berrar tão alto, mas tão alto, que todos que estivessem naquela fazenda haveriam de ouvi-la. Tão autoritário dentro de cada metro quadrado daquelas terras, o homem honesto mostrava-se submisso a Mentira, cedendo a todas aquelas torpes ameaças.
   A única coisa que a Verdade desejava era a sua liberdade, sempre ameaçada após correrem boatos sobre uma besta quadrúpede de um olho só que vivia nos arredores do canavial. Vieram aos montes, munidos de foices e toras de madeira, homens determinados a exterminarem a Verdade. Mas lá estava o animal responsável por sua criação, com seu porte colossal e suas três cabeças, sempre a protegê-la de qualquer ameaça. E assim seria durante anos: o Tempo foi o guardião da Verdade até o dia em que ela pôde andar com suas próprias pernas.
   Cumprindo sua promessa feita há anos atrás, o homem correto regressou de suas férias em uma previsível manhã ensolarada. O homem honesto, que tinha total consciência de que tal retorno se sucederia, arrumou suas malas, decidido que agora era ele quem necessitava de umas boas férias. Saiu pela porta da frente com um ar triunfante, levando a Mentira pelas mãos. Foram juntos, pai e filha, curtirem o período de férias bem próximo dali.
   Retornaram ao Pritaneu após oito anos. Cumprindo sua parte no acordo de cavalheiros, o homem correto partiu mais uma vez para suas merecidas férias, deixando ao homem honesto a Política e o quarto principal que outrora ocupara. De volta àquele recanto que lhe era tão familiar, contemplou a paisagem da janela: viu, ao horizonte, inúmeros palacetes portentosos e luxuosos, e tantos outros ainda em construção que se perdia a conta; viu charretes e mais charretes circulando incessantemente sobre as estradas de terra, levantando uma densa neblina de poeira; viu o abatedouro, que ampliara de tamanho e recebia, durante o crepúsculo da manhã, uma quantidade indecifrável de carretas vindas das fazendas vizinhas abarrotadas de bovinos que, desolados, aguardavam estoicamente serem dilacerados para virarem mercadoria em algum canto, embalada e pronta para o consumo; viu o estábulo dos suínos, que continuavam comendo a lavagem regurgitada; viu o muro, muito maior que há oito anos, e prometeu ambiciosamente a si mesmo fazer dele uma muralha que pudesse ser vista da lua. Mas viu algo que o deixara inconformado: havia incontáveis mulos transitando por todos os cantos da fazenda, comendo muito pasto, bebendo a água translúcida do caudaloso riacho e ainda – veja só o absurdo – defecando aos montes sobre a relva seca. Decidiu agir: expulsou todos aqueles mulos de sua fazenda definindo, por decreto, que nenhum equino viveria sobre a proteção daquele muro, exceto aqueles em que o couro estivesse marcado pelo ferrete.
   O boato que rondava a fazenda sobre a Verdade, que caíra no esquecimento nos oito anos anteriores, voltou a ganhar força. Aquela história em que todos imaginavam não passar de uma lenda urbana foi perdendo seus ares de ficção a medida em os dias corriam, e a Verdade – que sempre foi real – ia se agigantando, de forma que até mesmo a imensidão do canavial tornara-se pouco para ela. Novamente, homens e mais homens foram armados até o canavial para acabar com o ciclope quadrúpede que diziam estar ainda maior do que em outros tempos.
   A Mentira também se tornou alvo de boatos: havia quem custasse a acreditar que ela fosse real, tamanho era o seu arrebatamento; sua estonteante e contraditória beleza era o retrato de toda a malícia da inocência contida nela: a maturidade do corpo marcado por expressivas curvaturas em meio a seus curtos membros de criança; os pômulos do rosto, inflados, davam um tom infernal aos seus olhos azul-celeste; um lúcido sorriso capaz de esvair a lucidez de qualquer homem; e em tudo aquilo que a natureza não lhe fora generosa, arrumava-se uma forma de mascarar: a baixa estatura devida às pernas curtas era amenizada com tamancos salto alto; a proeminência de rugas e o nascimento de fios grisalhos – que, estranhamente, já a sondavam – eram escondidas por trás de uma segunda pele feita à base de cosméticos e tinturas amoniacais, respectivamente. Se a alguém fosse possível observar, notaria que o crescimento desembestado da Verdade e o envelhecimento precoce da Mentira ocorriam de forma sincrônica; mas tal observação viria a ser feita apenas pelo homem honesto, ao mesmo instante em que notasse que o Tempo voa.
   Apesar de jamais ter deixado de estar próximo da Política naqueles oito anos anteriores, o homem honesto desejava compensar-se por cada segundo em que ficara longe do Pritaneu. Usando, novamente, o dinheiro resguardado pela Política, promoveu diversas esbórnias, sempre regadas a muito champanha e convidados inescrupulosos. Aquelas reuniões imorais; aquela bacanal orquestrada pela Política não era, nem nunca fora, novidade naquela casa; contudo, jamais se vira tantos convidados como naquelas promovidas pelo homem honesto. O Pritaneu enchia-se de homens buscando prazeres com a Política – um deles, inclusive, conhecido naquelas redondezas por sua fé e por enxergar muito bem, tornou-se íntimo tanto do homem honesto quanto da Política.
   O trágico fim do homem honesto veio no momento em que a Verdade pôde andar com as próprias pernas. Após anos de fuga, a Verdade passou a confrontar os homens que tentavam, de todas as formas, sepultá-la: já nos anos anteriores, passou a imita-los, buscando portar-se em riste. Ao conseguir manter-se ereta, empenhava-se a dar seus primeiros passos; de início, com dificuldades, mas não tardou para que ela aprendesse, não só a andar perfeitamente, como também a correr com ligeireza. Postando-se de forma impávida, poucos homens ousaram combate-la; estes, logo foram engolidos. Quando a Verdade deixou de estar oculta e cruzou toda a fazenda, as reações demonstravam-se bem diversificadas: havia aqueles, já citados, que tentavam, de todas as formas, combate-la; outros, temendo ser devorados, fugiam o mais depressa possível; alguns, incrédulos, recusavam-se a acreditar naquilo que seus olhos viam; alguns outros, por incapacidade ou falta de interesse, de fato não viam a Verdade. Como se estivesse sendo guiada por um senso de vingança instintiva, aquela criatura homérica, nua e opulenta, correu a passos largos em direção ao Pritaneu. Logo que foi possível ouvir o estrondo das pegadas, todos aqueles que se saturavam na farra da Política promovida pelo homem honesto foram cobertos pelo pânico. Em um alvoroço súbito, saíram todos de forma desgovernada, aos murros e pontapés. Acelerados pelo medo tratavam de todas as maneiras escaparem da Verdade; alguns, invariavelmente, acabaram sendo engolidos.

   Após aquela fuga em massa, o homem honesto viu-se solitário no Pritaneu. Até mesmo a Política o abandonara. Enquanto ouvia o estrondo e sentia o abalo das pegadas cada vez mais intensos tentou, a princípio, fugir como os outros. Percebendo que seria inútil, tentou esconder-se em algum quarto; foi neste momento que se lembrou de sua filha. Sabendo que ela jamais o abandonaria, partiu em busca da Mentira. Ao entrar em seu quarto, foi tomado pelo espanto. Deparou-se com uma senhora esquelética, em um lastimável estado de decrepitude: os poucos fios que restavam no couro cabeludo haviam perdido toda a coloração; a elástica pele estava repleta de fissuras; já não possuía um único dente em sua boca; entrevada, como alguém que não consegue manter-se em pé, estava recolhida em um canto do quarto. Pensou ter se reencontrado com a Política, mas logo reconheceu a filha ao fitar seu olhar inigualável. Aos prantos, abraçou-a vigorosamente com todo o seu amor, sabendo que a Mentira era tudo o que lhe restava. Olhou para a janela e viu o Tempo, sacudindo suas asas em direção ao horizonte. Tudo fazia sentido agora. Manteve-se estoico quando uma colossal mão fria e calejada agarrou a ambos. Levados em direção a uma nidorosa fossa úmida e estreita, pai e filha precipitaram-se goela abaixo. O homem honesto e a Mentira morreram abraçados, engolidos pela Verdade.