É provável que você já tenha ouvido de algum educador - ou de alguém metido a ser um - a seguinte máxima: "É em casa que se aprende". Os professores, especialmente os da educação infantil, utilizam-se muito dela quando fracassam em domar o comportamento de algum aluno. Não se trata, especificamente, de uma mentira, mas sim de uma ótima maneira de se livrar de uma possível culpa ou responsabilidade pelo comportamento endiabrado da criança.
E onde os professores atiram essa culpa? Isso mesmo, no colo dos pais. E é bem provável que eles tenham razão: são nossos pais que nos ensinam a grande maioria das coisas que aprendemos na infância e levamos conosco durante toda a vida, sejam elas intencionais, como falar "mamãe e papai" e andar de bicicleta, ou não-intencionais, como trocar de canal na tevê e mentir.
Mentir?!
Mas não são os pais que, a fim de inibir as lorotas da prole, costumam repetir a todo instante que "se mentir, o nariz cresce"?! Veja só a ironia: os pais são tão mentirosos que, para ensinar os filhos que é errado mentir, fazem isso como? Mentindo.
Bem, eles costumam estar carregados de boas intenções - na maioria das vezes. Seja falando sobre a existência de D... - ops! - do Papai-Noel, ou sobre como você foi trazido a este mundo por uma cegonha, eles mentiram, confessam ter mentido, e se orgulham de ter mentido, afinal de contas, você era apenas uma criancinha, necessitava de alguma fantasia em sua vida e, além disso, pequeno demais para lidar com a complexidade da verdade.
Porém, nem todas as mentiras que eles te contavam eram bem intencionadas. Quem nunca ouviu, quando quis passar o tempo de alguma forma junto a eles, um "papai/mamãe tá cansado(a)...", quando, na verdade, eles apenas queriam permanecer sentados na frente da tevê, nas palavras do célebre Jaiminho, o Carteiro: "Evitando a fadiga"?! Ou pior: só quem já ouviu um "na volta a gente compra", sabe o real significado da palavra "traição".
Mas nenhuma das mentiras mal-intencionadas dos pais é tão perigosa quanto esta: "Isso é para você aprender!" antecedida de umas boas palmadas, ou chineladas, ou cintadas, ou tamancadas, ou palmadas de palmatória... (os pais são bem criativos nesse quesito, posso te garantir).
Não é a fala, por si só, que caracteriza a mentira, até porque nem sempre que os pais batem em seus filhos eles a pronunciam , apesar dos filhos sempre a subentendê-la. A grande mentira está na ideia da punição física como corretivo moral, e ela é como uma bactéria: você não costuma enxerga-la; é disseminada a pessoas próximas; é perigosa; e cria mecanismos de defesa.
Os pais que batem em seus filhos, acreditam piamente que o fazem para corrigi-los, quando não conseguem nem mesmo enxergar sua verdadeira motivação. Afinal de contas, a sociedade sempre exalta os pais que corrigem seus filhos com algumas "palmadas" (fiquemos nesse eufemismo). Você sempre ouvirá, aqui ou ali, algum cidadão - de bem - que afirma que seus pais sempre lhe batiam, e isso fez com que ele nunca roubasse ou matasse. Esses pais, além de terem contaminado seus filhos com a mentira do "bate, que aprende", ainda lhes ensinaram a utilidade da mentira e como sofistica-la (ou será que tais cidadãos nunca roubaram, nem ~aquela vez~?)
Se tem uma coisa que as surras, ou palmadas, nos ensinam, é que elas doem e nos fazem chorar. Mas nossos pais não são como o Papai-do-Céu, que tudo vê, e você vai poder aprontar às vezes, desde que eles não vejam ou saibam. E se alguém nos ver cometendo o delito e delatar-nos a eles? Aí você poderá recorrer a ela. Sim, ela mesmo: a mentira. Vale simplesmente negar, ou caso prefira, jogar a culpa no colo de alguém (como nossos queridos professores fazem com nossos queridos pais). Nem sempre a mentira cola, é verdade - o que acaba resultando em palmadas ainda mais doloridas -, mas com o tempo você vai aperfeiçoando sua técnica (Em tempo: os pais não deixam por menos, e devolvem a peteca aos professores dizendo que é eles que "não sabem ensinar", ou aos coleguinhas de classe, também conhecidos como "má-influências").
Mas se os pais estão mentindo para si mesmo quando dizem bater no filho para corrigi-lo, qual seria a verdade? Ou, em outras palavras, qual é a real motivação para que um pai ou mãe bata em seu filho?
Simples: é relaxante.
Mais relaxante do que um livro de colorir ou um hand-spinner, juntos. Se você já constrangeu seus pais na frente de parentes ou estranhos estando fora de casa, é provável que tenha ouvido o clássico "em casa a gente conversa". Você sabia muito bem que isso era um eufemismo para "você vai levar uma surra", e então passava apreensivo cada segundo que separava a ameaça até a chegada em casa, torcendo que seu vacilo fosse esquecido e a surra não ocorresse. E às vezes, de fato, ela não ocorria. Porém, dificilmente foi por causa que o constrangimento que seus pais passaram por sua causa tivesse sido esquecido. É muito mais provável que o estresse que eles sentiram naquele momento já havia se esvaído, e já não valia o esforço físico que seria te dar algumas palmadas. Mas caso eles ainda estivessem estressados contigo...
Isso não significa que seus pais lhe tiveram apenas para aliviar o estresse após um dia cansativo no trabalho. É mais provável que você esteja lendo este texto porque seus pais, por algum motivo, não usaram camisinha no coito que deu origem a sua fecundação, e neste país o aborto seja proibido e visto como algo imoral. Ok, talvez você de fato tenha sido planejado, seja por vontade deles ou por desejo de seu/sua irmãozinho(a), que queria um(a) irmãozinho(a) (crianças são ingênuas, né?!).
Bem, o fato é: os pais que batem em seus filhos geralmente os amam e não desejam bater neles apenas por bater, apenas o fazem caso sintam que isso aliviará seu estresse (e puderem se reconfortar na ideia de que estão os educando). Mas isso não significa que, quanto mais surra, mais alívio. Existe um limiar que, se for ultrapassado, pode fazer com que as palmadas dos pais se voltem contra eles...
Eu tinha dez anos e não gostava de tomar banho. E como gostar?! Com dez anos de idade você não flerta com ninguém, e nem vai ao shopping com muita frequência, de forma que não existe grandes motivações para que você esteja limpo e cheiroso. E nem é muito lógico, já que é algo que você deve fazer denovo, denovo e denovo, devido a sua finalidade efêmera. Tampouco é divertido (isso muda com o passar dos anos, se é que você me entende...). Porém a minha falta de higiene incomodava meu pai, que, insistentemente, me mandava tomar banho. Não existe, também, nenhuma grande motivação, lógica ou diversão em mandar seus filhos irem tomar banho, mas se os cidadãos dizem que é isso que um pai deve fazer, então...
Tenho uma certa dificuldade em descrever meu pai, mais ainda de descrever minha relação com ele. É como se houvesse três Edilsons em nossa casa: um deles seria eu, e os outros dois seriam suas duas personalidades distintas. A primeira delas, e mais comum na maioria do tempo, é descontraída (às vezes até demais), faz piadas com tudo e com todos (às vezes em momentos inapropriados), mas sempre divertido. Em suma, é quando ele está de bom humor. Mas também existe a metade podre da laranja. Azeda, bem azeda. Ela gosta de ordem, de ser a ordem. Tudo o que é dito deve ser feito; tudo o que é feito não é como foi dito. Nada está bom, nada vai estar. Qualquer coisa será motivo para berros, xingos, berros, sermões, berros, lamentos, berros... O único meio-termo entre esses dois estados de espírito é uma linha que, de tão tênue, chega a ser praticamente invisível, e é impossível saber quando ela vai ser cruzada.
Quando eu novamente me recusei a ir tomar banho - meu corpo, minhas regras! - era o seu lado negro quem eu desafiava. Como eu podia ser tão ingrato assim?! Me manteve aquecido em seu saco; fez o sexo que me deu origem; me mantinha alimentado, vestido, protegido. Como eu podia ter tamanha ousadia em me opor a autoridade dele naquela casa desta forma?! Eu iria tomar aquele banho, sim! Fosse por mal ou por mal!
Não lembro nitidamente do que se seguiu, apenas de alguns flashes, mas me lembro de ser arrastado bruscamente, tentar gritar e ele tapar minha boca, e me jogar dentro do banheiro. Tirar minhas roupas à força enquanto me dava uns tapões. Esfregou a bucha em meu couro com tanta força, que eu sentia que iria arrancá-lo. Eu chorava. Até meus irmãos, que debochariam de mim em situações parecidas, ficaram assustados.
Aquele banho, enfim, terminou.
Continuava a chorar. Sentia dor e ódio. Mais ódio do que dor, muito mais. Meu ódio era tanto que eu havia até parado de chorar, e apenas murmurava toda aquela ira contida em mim. Só por causa de um maldito banho... Queria fazê-lo pagar por tudo aquilo. Foi quando ele se aproximou novamente de mim e, antes que eu pudesse ter qualquer reação, me deu o abraço mais apertado que já recebi. "Me desculpa, filho! Me desculpa!" Chorando. "Me desculpa! Me desculpa!" Raras foram as vezes que eu já havia visto meu pai chorar, ou pedir desculpas a alguém, e lá estava ele, fazendo essas duas coisas por mim.
Penso que talvez a pessoa insensível aqui esteja sendo eu, em meio a tantos momentos felizes que já tive com meu pai e que hoje mal consigo me recordar, só consiga achar motivações para escrever sobre o mais triste. Sobre como ele foi cruel comigo, quase um monstro. Ele não é um monstro, nunca foi. Ele é apenas um ser humano, esse primata de polegar opositor que mente, que acredita, que se defende, que se engana, que ordena, que desobedece, que obriga, que se irrita, que agride, que se arrepende, que se desculpa, que chora.
Eu também comecei a chorar, e devolvi nele o abraço mais apertado que já havia dado em alguém. Eu era seu filho, um ser humano, esse primata de polegar opositor que mente, que acredita, que se defende, que se engana, que ordena, que desobedece, que obriga, que se irrita, que agride, que se arrepende, que se desculpa, que chora - e que perdoa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário