segunda-feira, 16 de julho de 2018

CHOQUE REI (PARTE 1)

  A gravidade do acidente atraiu a todos. As calçadas do cruzamento entre a Av. Dias Gomes e a Olavo Billac foram, em instantes, apinhadas por uma multidão polvorosa. Tentado pela curiosidade, o povo se amontoava e se esbarrava feito uma colônia de formigas, atraídos pelo doce esparramar do insólito. Espremiam-se, equilibravam-se na ponta dos pés, elevavam seus queixos, tudo em busca de uma fresta de observação. Viaturas da polícia e veículos de resgate ocupavam uma das faixas de cada via. As buzinas dos veículos congestionados estouravam continuamente de um extremo ao outro, ressoando como uma sinfonia disforme e atordoante. Os motoristas, obrigados a reduzirem a velocidade ao passar pelo cruzamento, faziam questão de reduzi-la ainda mais, a fim de obter uma visão privilegiada do ocorrido. Os policiais e o corpo de bombeiros exerciam suas funções com uma devoção imperturbável, vigiados pela massa e pelo helicóptero que revoava o céu nublado da tragédia, pipocando um ruidoso zunido. Havia crianças por todas as partes: as de colo, miúdas demais para entender coisa alguma, apenas balbuciavam manhosas ou chuchavam o seio de suas mães; haviam aquelas, um pouco maiores, capazes de reconhecer um rebuliço, que faziam, sobre o ombro de seus pais, uma série de indagações a estes, que as abafavam com respostas rasas ou monossilábicas; já as mais crescidas, com as roupas encharcadas, corriam de lá para cá, alegres, infiltrando-se na multidão, agitando as mãos em direção ao helicóptero, vivenciando aquele alvoroço com uma felicidade pura e espontânea, como quem sabe que tais acontecimentos duram pouco sempre e são bastante difíceis de aontecer, como o natal e o ano novo. Grupos se formavam em meio ao furdúncio, onde as diversas verdades e culpados zuniam da boca aos ouvidos, e dos ouvidos à boca, transmitindo as fofocas que se espalhavam e se modificavam com maior velocidade e eficácia do que moléstia contagiosa. Quê foi? Quê que aconteceu? Quem?! O quê?! Meu Deus...As pessoas iam se somando. Os ruídos se multiplicavam. O alvoroço se potencializava. Os populares, munidos com seus smartphones, acotovelavam-se para registrarem todos os elementos da cena, inclusive através de selfies e vídeos narrados. As câmeras, constantemente alternando seus alvos, davam enfoque especial ao sedã preto enfiado dentro do bar da esquina; ao SUV prata de lataria amassada no meio do cruzamento; à mulher transtornada que se agitava e era acalmada por policiais; à moto estatelada no asfalto úmido e ao motoqueiro, que estava sendo resgatado pelo corpo de bombeiros. "Qual seu nome, filho? Els?! Desculpa, não entendi. Elsu? Nelson?! Ok, Nelson. Nós vamos colocar você na maca agora. Fique calmo que..." E Kelson, sentindo o corpo inerte levitar, cerrou suavemente os olhos, crente de que o alarme do celular logo menos soaria, e ele precisaria estar de pé para mais um dia de trampo.

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