Minha mãe havia mesmo surtado. E surtou novamente quando me viu.
“Onde você tava, ein?! On-de vo-cê ta-va?!” Urrou pausadamente ao aproximar-se de mim, parecendo não saber se me abraçava ou se me esganava de uma vez.
“Numa festa”.
E então ela deu início a um interrogatório ferrenho: Que festa?! Com quem?! Onde você dormiu?! Você sabe a preocupação que eu passei?! Eu iria ligar pra polícia! Por que você não atendeu minhas ligações?! O quê?! Bebeu?! Bebeu! A voz dela começou a ficar embargada enquanto ela falava que eu não fazia ideia de como é ser mãe, e que eu não dava a mínima pra ela mesmo depois de tudo que ela havia feito e fazia por mim, que eu era um menino tão amoroso, tão dedicado, tão estudioso! E depois que eu comecei a andar com essa gente da faculdade eu havia mudado completamente, e ela já não sabia mais quem eu era. Por que eu estava fazendo aquilo com ela, por quê?! E chorou, como se soubesse tudo o que havia acontecido na noite passada - e talvez soubesse.
Ela me proibiu de ir a outras festas, e passou a me mandar mensagens quase todos os dias assim que anoitecesse. Mas mesmo que não houvesse proibição, eu já não sentia mais vontade de ir em festa alguma, como não havia sentido daquela vez. Não importava mais se aquela história sobre o Pitt era verdadeira. Ele e Rouge estavam juntos agora, e eu já não queria mais vê-lo por perto. E o pior de tudo é que tinhamos de ler, eu e as outras meninas da equipe, como ele era um foooooofo, que sempre dava bom dia, perguntava se ela tinha dormido bem, que aula ela iria ter, se ela iria para o treino, se ela havia tido um dia bom, e depois de dizer diversas coisas fofas durante o dia, sempre dava um boa noite cheio de coraçõezinhos.
O ranço em comum por Rouge aproximou-me mais das outras meninas da equipe. E se antes elas já se sentiam desinibidas para falarem de assuntos íntimos na minha presença, algumas delas me elegeram como conselheiro amoroso e sexual, e era comum que viessem até mim desabafar sobre alguma mancada do boy lixo ou me mostrar algum nude que haviam recebido, como se buscassem minha aprovação para decidir quais pirocas deveriam pôr na boca. Eu gostava de exercer esse papel, e me portava como se eu realmente entendesse sobre amor e sexo, mesmo sendo mais inexperiente nesses assuntos que a grande maioria delas. Depois de um tempo, era impossível não associar os garotos, quando os via, com seus respectivos nudes.
Eu finalmente passei a me sentir acolhido pela equipe. Não que eu não tivesse sido acolhido antes, mas agora eu me sentia como se eu fosse alguém realmente importante nela. Dedicava-me mais aos treinos; participava das conversas jogadas fora nos grupos de WhatsApp; e era conhecido por aqueles que não faziam parte da equipe como “Pônei, do atletismo”. Os convites para festas tornaram-se mais frequentes, e não só feitos por Mika.
Respondia dizendo que não ia dar, tinha que estudar pra alguma prova ou terminar algum trabalho.
Aqueles meses de treino também trouxeram resultados em meu corpo, e eu passei a tomar gosto em admirar-me nu frente ao espelho. Era a primeira vez na vida que eu me achava verdadeiramente sensual para alguém, não só para mim mesmo. E acredito que eu realmente estava sensual, pois passei a trocar olhares com alguns meninos com certa frequência, isso quando não vinham até mim, fosse de forma direta, pessoalmente ou por Facebook, ou fosse por intermédio de minhas amigas, que vinham geralmente me dizer como seu amigo tinha me achado gatinho e queria me dar uns beijo. Conversei com alguns; e uns poucos destes eu cheguei mesmo a beijar, quando não eram apressados demais ou não tinham a exigência de que o beijo ocorresse na próxima festa em tal lugar. Com nenhum deles a coisa foi muito além disso, exceto com o Hugo.
Sempre foi comum, depois que nos tornamos próximos, que Mika me convidasse para ir na sua república. Eu havia recusado todas as vezes antes de ir até lá com Hugo, usando sempre alguma desculpa clichê. Mas depois daquele dia, ela passou a fazer os convites com uma nova expectativa, mais entusiasmada, como se eu já fosse íntimo daquele apartamento.
“Você vai, né?!”
“Acho que sim...”
“Acha?!”
“Não sei...Ah, vou sim.”
“Ótimo! Então, a Giza vai; o Bruno; a Talita, aquela que era minha best no ensino médio, que eu já te contei. Deixa eu ver quem mais…”
Para toda e qualquer atividade que Mika fosse realizar no seu apartamento que pudesse ser melhor feita em companhia eu era convidado. Elas iam desde fazer uma maratona de alguma série, à participar de alguma festinha que estivesse sendo dada por alguém que morasse na república.
“Tá, eu vou. Só não posso ficar muito...preciso estudar pra prova”.
Hugo não estava presente na maioria das vezes que fui lá, mas nas festinhas ele sempre estava. Em todas elas, logo após os convidados mais interessantes chegarem, sempre rolavam alguns joguinhos envolvendo bebidas e verdades comprometedoras. Ninguém era completamente sincero neles, e era comum que as pessoas mentissem para parecerem menos - ou mais - piranhas do que de fato eram. Hugo era o único que parecia não esconder ou inventar nada. Não precisava disso. Ele aparentava viver sua vida de um jeito tão singular, que até mesmo os acontecimentos mais surreais pareciam ser verídicos partindo dele. Cagava para o que os outros pensassem, desde que gastassem algum tempo pensando nele. Isso tudo, de alguma forma, me atraía. Eu começava a me liberar de todos os bloqueios que eu tinha com ele desde “aquele dia”.
Hugo passou então a preencher os vácuos no meu pensamento que antes eram preenchidos por Pitt; e que antes de Pitt eram preenchidos por meninos tão inacessíveis quanto ele. Mas naquele momento parecia que, depois de tantas vezes gostar de pessoas que eu sabia que nunca me corresponderiam, o amor era para mim uma possibilidade real, tão próxima que poderia ser tocada de leve. Estava gostando dele; talvez estivesse apaixonado. Talvez.
Nosso primeiro beijo após aquele dia aconteceu em um Verdade ou Desafio numa daquelas festas, no qual pela primeira vez eu beijei uma garota. Depois daquele beijo, em Hugo, se seguiram vários outros. Ficamos depois nessa mesma festa, antes de eu me despedir apressado dizendo que minha vó iria em casa e eu precisava ir. E ficávamos sempre que eu fosse até aquele apartamento e ele estivesse lá; ou quando ele me convidava a aparecer no fim do treino de natação; ou quando ele me mandava mensagem falando que queria ficar. Mas, no início, só ficávamos. Beijos, carícias, apalpadas, roçadas e só. Eu sempre desconversava ou evitava as investidas sexuais dele. Não sentia sexualmente a mesma atração que eu sentia emocionalmente, se é que eu sentia alguma atração sexual por ele. Rememorando agora, eu acho que nunca senti, e não sei dizer se era algo com ele ou se porque, para mim, paixão e tesão são coisas conflitantes, e se um está presente, o outro não pode estar na maioria das vezes.
Ainda assim transamos algumas vezes depois de um tempo. E todas essas transas foram, na melhor das hipóteses, um pouco mais toleráveis do que a primeira. Se eu estivesse um pouco bêbado poderia ao menos me agarrar a ideia de que não estava aproveitando melhor o momento por causa da bebida, o que era uma coisa boa, até. Pra ser sincero, talvez seja preguiça de forçar um pouco a memória, mas não consigo me lembrar de transar com ele sóbrio. E quanto mais longe eu estivesse de estar completamente embriagado, mais desconfortável era a transa, em todos os sentidos. Ele não fodia mal; sabia chupar também - apesar de preferir ser chupado, como quase todo mundo - , e ainda assim era sempre pequeno o prazer que eu tirava do sexo com ele. Cheguei a pensar se não era por causa do tamanho da rola dele, e durante muito tempo me apeguei a essa versão, apesar de não estar mais certo sobre ela hoje em dia. Gogitei a possibilidade de eu só curtir gouinage, como se fosse uma dessas doenças raras que você acha que só acontecem com os outros, até que você se descobre como um portador certo dia. Sugeri a ele que tentássemos, o que o fez se sentir contrariado. Mas no fim, quando rolou, uma transa sem penetração pareceu para mim como uma transa que inicia sem começar e terminar sem ter acabado. Eu tentava achar diversas respostas e soluções quando a verdadeira explicação era bem mais simples: há pessoas que te provocam tesão; e outras, não. E ponto.
Foi nessa época que Mika, mais uma vez, reatou com Tuca. Era comum encontrá-lo pela república nos momentos que eu estivesse lá. Ele costumava a me tratar com a mesma indiferença que Nicki, a gata de estimação que vivia lá, me tratava, dirigindo a palavra a mim apenas quando era de seu interesse, como quando queria saber se eu havia visto seu maço de cigarros ou seu isqueiro. Ele foi, em tempos passados, o maior destaque da equipe masculina, e ainda se portava com a mesma presunção que seus dias de glória haviam lhe permitido. Os garotos da equipe o tratavam com a mesma reverência que o haviam tratado antes dele ter aquela leve papada e aquela barriga um pouco saliente. Ele parecia se orgulhar de todos os seus feitos dentro e fora da pista, dignos e indignos. Havia tido diversos casos com garotas da nossa equipe e de outras, algumas delas em tempos em que estava com Mika, se não a maioria. O fato deles terem reatado era uma das coisas que mais tiravam Hugo do sério.
“Olha, eu já desisti. Sinceramente...Como pode ser tão trouxa?! Como pode gostar tanto de ser chifruda?! Toda a vez que eu perguntava o porquê dela ter voltado com ele, ela falava ‘ai, não sei, é sexo, é o sexo dele, é diferente’. Ahhh, me respeita! Tanto macho que mete bem espalhado por aí...tanta piroca boa esperando pra ser chupada, e ela se rastejando atrás desse embuste. Sabe o que é isso?! É gostar de ser trouxa!...Não é o sexo, é gostar de ser trouxa!” Bufava. “Mas eu é que não falo mais nada…”
Mika começou a desabafar comigo com maior frequência, e de uma maneira mais profunda que antes. Não se limitava só a dizer o quão bem ou mal pareciam estar as coisas entre ela e Tuca, como começou também a me mandar print das conversas que tinham, para que eu a ajudasse a interpretar as falas e as possíveis motivações ocultas dele, como outras garotas já tinham o costume de fazer antes dela. Minhas respostas nesses casos costumavam ser sempre as mesmas, e não só por preguiça da minha parte, mas sim porque os crushes e arrobas com que elas se relacionavam eram tão iguais e agiam de forma tão previsível que pareciam até serem a mesma pessoa - e por mais sórdido que seja, às vezes eram.
Foi mais ou menos nessa época que, depois de muito tempo, Rouge me chamou no privado.
Disse que fazia tempo que não nos víamos e nem conversávamos, e que estava com saudade.
Quis saber como andava os treinos.
Quis saber como andavam as coisas entre eu e Hugo.
Quis saber como ele era.
Ele é um cara legal, eu disse.
Vocês devem estar fazendo muito aquilo! Hahahahaha, ela disse.
Aquilo?!
É, você sabe, sexo. Vocês fazem muito?
Às vezes, eu disse.
Mas vocês fazem, né?! Mesmo que não seja sempre.
Sim, por quê?
Por nada.
Ainda não estava claro para mim aonde ela queria chegar com aquilo, mas eu já possuía uma certa ideia.
Mas posso te perguntar uma coisa? Ela continuou.
Foi quando ela confirmou minhas suspeitas dizendo que, mesmo depois daqueles três meses, ela e Pitt ainda não haviam transado. Nenhuma vez. Nem oral. Ela já havia o convidado a aparecer na sua casa em finais de semana prolongados em que sua família ia viajar, e que ela havia deixado de ir justamente para que aquilo finalmente acontecesse. Mas ele nunca podia; sempre tinha algo pra fazer. Ele também nunca entrava muito na onda quando ela começava a falar ou mandava algum meme sobre safadeza. E em todas as pegadas que tiveram, ele nunca havia apertado a bunda dela com vontade.
É normal isso? Ela quis saber.
É sim, eu acho. Não se preocupe - Não era.
Ai, maravilha! Tava preocupada já.
Tivemos essa conversa umas duas semanas antes deles terminarem.
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